Dois meses após a publicação da Medida Provisória (MP) 1.376/2026, as renegociações de dívidas de produtores rurais no Paraná continuam avançando pouco. Levantamento realizado com sindicatos do estado aponta baixo enquadramento nas regras, demora dos bancos, exigência de garantias adicionais e propostas com juros maiores do que os contratos originais, mantendo a pressão sobre o caixa dos agricultores.
Taxas chegam a 20% e exigem novas garantias
Em Guarapuava, no centro-sul paranaense, apenas um produtor teria conseguido se enquadrar na agência bancária local. O presidente do sindicato rural do município, Rodolpho Botelho, relatou que os bancos vêm pedindo garantias adicionais e oferecendo juros entre 18% e 19% ao ano, acima das taxas originais, que variavam de 14% a 16%.
Em São Mateus do Sul, cerca de 12% das propostas de prorrogação encaminhadas às instituições financeiras foram aceitas. Segundo o sindicato local, operações de Cédula de Produto Rural (CPR) têm sido oferecidas com juros entre 18% e 20% ao ano, enquanto pedidos já protocolados permanecem sem resposta em parte dos casos.
Regras da medida deixam produtores fora
Um dos principais obstáculos é o marco de inadimplência previsto na MP. A regra considera dívidas vencidas até 31 de maio, deixando de fora agricultores cujos compromissos de custeio venceram em junho, julho ou agosto. Com isso, produtores que enfrentam dificuldades semelhantes podem não ter acesso ao mecanismo de renegociação.
Também há críticas ao limite de R$ 4 milhões por operação, considerado restritivo para médios e grandes produtores. Na prática, a restrição reduz o alcance da medida justamente em operações com maior volume de crédito, nas quais uma renegociação parcial pode não ser suficiente para aliviar o fluxo de caixa.
Documentação e análise bancária atrasam acordos
Em Maringá, no norte do estado, sindicatos relatam demora na avaliação dos pedidos pelos comitês regionais dos bancos. O endividamento é atribuído à combinação de juros elevados, queda de aproximadamente 50% nos preços das commodities nos últimos anos, frustrações de safra e baixa disponibilidade de seguro rural.
Em Guamiranga, nos Campos Gerais, produtores enfrentam dificuldades para obter laudos de frustração de safra e documentos contábeis exigidos no processo. Também há agricultores que não atendem ao período de inadimplência definido pela MP, mesmo tendo acumulado perdas recentes.
Entidades pedem mudanças ao Congresso
Diante dos entraves, entidades do setor encaminharam uma carta ao Congresso Nacional pedindo alterações nas regras. Entre as propostas estão a simplificação da comprovação de perdas, a flexibilização do valor de entrada, a adoção de critérios nacionais de enquadramento e a preservação do acesso ao crédito durante a continuidade das atividades.
As entidades também defendem a manutenção das taxas e das garantias previstas nos contratos originais. Outra reivindicação é suspender a inclusão dos produtores em cadastros de inadimplentes, como o Serasa, enquanto a MP estiver em vigor. Sem essas mudanças, a renegociação pode não produzir alívio suficiente para recuperar a capacidade de pagamento.
O que observar nas próximas semanas
O caso de Dalnei Menon, de Guamiranga, ilustra a dimensão do problema: ele acumulou mais de R$ 2 milhões em operações bancárias após perdas provocadas por seca, geada e baixa produtividade nos últimos três anos e reduziu a área explorada para 60 hectares por falta de capital de giro.
Para produtores, o próximo passo depende de ajustes nas regras e de respostas mais rápidas dos bancos. Para consumidores e investidores, a evolução das renegociações será relevante porque determina a capacidade de manutenção da produção e dos investimentos no campo, além de indicar se o endividamento continuará limitando a atividade agrícola paranaense.
Impacto para a sociedade
A dificuldade para renegociar pode reduzir o crédito disponível para produtores, pressionar a renda no campo e comprometer investimentos em novas safras. Se o problema persistir, perdas de produção ou redução da área plantada podem afetar a oferta de alimentos e a atividade econômica em municípios dependentes do agronegócio.
