André Esteves, presidente do conselho de administração do BTG Pactual, afirmou nesta segunda-feira (14) que o principal risco para o Brasil nos próximos anos está no ambiente institucional, e não na condução da economia. Em painel sobre as perspectivas para 2030, ele disse que o país avançou na estabilidade macroeconômica, mas ainda precisa preservar as regras e avançar no equilíbrio fiscal para reduzir estruturalmente os juros.

Esteves vê a agenda econômica como mais previsível

Na avaliação do banqueiro, o próximo governo deverá receber um país em condições econômicas melhores do que as encontradas por administrações anteriores. Ele citou os períodos em que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva chegaram à Presidência como momentos de maior fragilidade macroeconômica.

“O tema econômico está fácil”, afirmou. Para Esteves, existe um caminho conhecido, baseado em experiências internacionais e na busca pelo equilíbrio das contas públicas, sem necessidade de medidas consideradas inovadoras ou experimentais.

Instituições são apresentadas como o maior desafio

Embora considere a agenda econômica mais clara, Esteves disse que a preservação do ambiente institucional é uma disputa mais difícil e que o Brasil não pode perder. A preocupação envolve o funcionamento das regras, da fiscalização e dos setores regulados.

Ele questionou o avanço da informalidade em segmentos regulados e citou o caso de empresas pouco relevantes do ponto de vista econômico, mas capazes de gerar prejuízos de dezenas de bilhões de reais. Para o banqueiro, situações desse tipo mostram a necessidade de fortalecer o chamado “Brasil institucional”.

Juros altos refletem estímulo fiscal e freio monetário

O executivo afirmou que o país ainda não tem “juros civilizatórios” e classificou a taxa de 14% como sufocante para empresas, bancos e consumidores. Ele defendeu que a taxa básica poderia cair para algo próximo de 7% caso o Brasil avance no ajuste fiscal.

O mecanismo descrito por Esteves é semelhante a um carro com acelerador e freio pressionados ao mesmo tempo: enquanto a política fiscal impulsiona a economia por meio de gastos e estímulos, a política monetária precisa manter os juros elevados para conter as pressões. Com menor expansão fiscal, haveria menos necessidade de usar juros altos para equilibrar a economia.

Queda dos juros afetaria crédito e investimentos

Uma eventual redução da taxa básica tende a diminuir o custo de empréstimos, financiamentos e capital de giro. Isso pode aliviar empresas endividadas e famílias que recorrem ao crédito, embora o repasse para as taxas cobradas pelos bancos dependa das condições de cada operação e do risco percebido.

Para quem investe, juros menores costumam reduzir a remuneração de novas aplicações de renda fixa atreladas à taxa básica. Ao mesmo tempo, podem melhorar as condições para empresas e favorecer ativos de maior risco, como ações, porque diminuem o custo de financiamento e aumentam o valor presente dos lucros esperados. Esteves disse que o benefício alcançaria especialmente a população de menor renda.

O que está em jogo até a próxima transição

Esteves afirmou que o Brasil já venceu “várias batalhas”, mas não pode baixar a guarda. Segundo ele, o país tem condições de ocupar uma posição internacional melhor do que a de referências como México e Rússia, citadas durante o painel, apesar dos problemas e desafios domésticos.

Na prática, a trajetória dos juros dependerá da capacidade do próximo governo de combinar responsabilidade fiscal com segurança institucional. Para consumidores, trabalhadores e investidores, o ponto central será acompanhar se o equilíbrio das contas públicas avançará de forma crível, pois isso influencia o custo do crédito, a renda das aplicações e o ritmo de crescimento da economia.

Impacto para a sociedade

A avaliação sobre os juros tem efeito direto no orçamento das famílias e das empresas: taxas elevadas encarecem empréstimos, financiamentos e renegociações de dívidas. Um ajuste fiscal consistente poderia abrir espaço para juros menores, reduzindo o custo do crédito e afetando também o rendimento de aplicações de renda fixa.