Treze aparelhos eletrônicos apreendidos em endereços ligados à produtora do filme Dark Horse foram recusados para análise pela perícia criminal de São Paulo por falhas nos lacres. O problema poderia permitir a entrada de cabos de energia e transferência de dados, abrindo margem para manipulação do conteúdo de celulares, notebooks e pen drives antes do exame técnico.
Por que os lacres foram considerados inadequados
A perícia apontou um defeito formal no plástico usado para embalar os equipamentos. As aberturas eram grandes o suficiente para permitir acesso físico aos aparelhos, segundo o termo de recusa elaborado pela perita criminal Vivian Menezes em 3 de junho de 2026.
O lacre funciona como uma garantia de que o objeto permaneceu intacto desde a apreensão. Em uma investigação digital, essa proteção é especialmente importante porque arquivos podem ser apagados, alterados ou incluídos sem que a mudança seja imediatamente perceptível. Por isso, os peritos rejeitaram os itens antes de iniciar a extração dos dados.
O que aconteceu com os equipamentos
Após a recusa, os aparelhos foram devolvidos à delegacia para que o material fosse acondicionado novamente, com a correção dos lacres. A medida não significa que os equipamentos tenham sido considerados falsos ou inúteis, mas que não apresentavam condições formais adequadas para uma análise capaz de sustentar conclusões periciais.
Imagens dos invólucros foram anexadas aos documentos para registrar o motivo da devolução. Esse registro ajuda a preservar a chamada cadeia de custódia, conjunto de procedimentos que documenta onde a prova estava, quem teve contato com ela e em que condições foi armazenada.
Qual é o foco da investigação
Os equipamentos foram apreendidos em endereços ligados a Karina da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga a suspeita de uso irregular de emendas parlamentares destinadas a empresas relacionadas à produtora.
Emendas parlamentares são recursos incluídos no Orçamento por deputados e senadores para financiar projetos e despesas públicas. A apuração busca esclarecer se o dinheiro foi empregado conforme a finalidade prevista ou se houve uma estrutura para direcioná-lo de maneira indevida.
O que mudou com a retirada do sigilo
As informações sobre a recusa dos aparelhos passaram a ser conhecidas após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, levantar o sigilo de documentos da investigação. Dino é o relator do caso e afirmou que os documentos enviados pela Justiça paulista reforçaram, no campo das hipóteses investigadas, a possibilidade de um sofisticado esquema de desvio de recursos públicos.
O ministro também mencionou que o deputado federal Mário Frias (PL-SP) ocuparia, ainda de forma hipotética, uma posição de liderança na suposta estrutura. As referências fazem parte da linha de investigação e não representam uma conclusão definitiva nem substituem eventual denúncia ou decisão judicial.
Próximos passos para a prova digital
Com a readequação dos lacres, os aparelhos poderão ser novamente encaminhados para exame, desde que atendam aos requisitos técnicos da perícia. A análise pode ajudar a verificar comunicações, arquivos e registros relacionados aos fatos investigados, mas a validade dessas informações dependerá da preservação do material desde a apreensão.
Para quem acompanha o uso de dinheiro público, o ponto central é que a falha nos lacres adia a leitura dos dados e pode afetar a força probatória do material. Os próximos avanços dependerão da nova perícia, da avaliação dos documentos já reunidos e das decisões judiciais sobre a continuidade da investigação.
Impacto para a sociedade
A investigação envolve a suspeita de uso irregular de emendas parlamentares, ou seja, recursos públicos que deveriam financiar ações e serviços definidos no Orçamento. Se houver desvio, o caso pode representar prejuízo ao dinheiro público, embora a recusa dos aparelhos ainda seja uma questão de preservação de provas e não uma conclusão sobre responsabilidades.
