A consultoria brasileira CELA e a IFC, braço do setor privado do Banco Mundial, firmaram um acordo para buscar formas de financiamento para projetos de baterias na América Latina e no Caribe. A parceria pretende capacitar bancos, investidores e reguladores sobre os riscos e os modelos de negócio do setor, considerado importante para ampliar o uso de fontes renováveis.
Por que o crédito ainda é um obstáculo para as baterias
Os Sistemas de Armazenamento de Energia por Baterias (BESS) guardam eletricidade produzida por fontes como solar e eólica para liberá-la em momentos de maior consumo ou quando a geração cai. Apesar do avanço tecnológico e do aumento no número de projetos, o mercado financeiro ainda tem pouca experiência para avaliar esse tipo de ativo.
Na prática, a falta de histórico operacional e de métricas de risco conhecidas dificulta a definição de taxas de juros, garantias e prazos de financiamento. Com maior incerteza, bancos e investidores podem exigir condições mais caras ou preferir não participar, reduzindo o capital disponível para novos empreendimentos.
Como funcionará a parceria entre CELA e IFC
A CELA ficará responsável pelo conteúdo técnico do programa, incluindo tecnologias de BESS, dinâmica do mercado, regras da transição energética, avaliação da bancabilidade — a capacidade de um projeto de obter financiamento — e oportunidades comerciais.
A IFC vai integrar a iniciativa à sua Academia de Bancos Verdes, plataforma que já oferece capacitação a instituições financeiras da América Latina e do Caribe. A programação deverá incluir cursos abertos, treinamentos dentro das empresas, workshops, seminários técnicos e mesas-redondas regionais.
O foco inicial será o Brasil, a América Latina e o Caribe, com possibilidade de expansão para outros mercados. A expectativa é aproximar empresas do setor de armazenamento dos mercados de crédito e de capitais, tornando mais claros os riscos e as fontes de receita dos projetos.
Leilão de baterias amplia a urgência no Brasil
O acordo foi anunciado em 11 de setembro, em São Paulo, em um evento sobre os desafios e as oportunidades do armazenamento de energia. O anúncio ocorre enquanto o Brasil estrutura as regras para seus primeiros leilões destinados à contratação de BESS de grande porte.
A Agência Nacional de Energia Elétrica realizou, no início de setembro, uma audiência pública sobre o tema. O leilão está previsto para dezembro, após atrasos, e pode contratar cerca de 2 gigawatts (GW) de capacidade, com expectativa de movimentar mais de R$ 10 bilhões em investimentos.
O papel das baterias na transição energética
O Brasil ampliou rapidamente a geração solar e eólica, mas essas fontes dependem do sol e do vento. Por isso, a produção nem sempre coincide com os horários de maior demanda. As baterias funcionam como reservatórios: armazenam energia quando há excesso e devolvem eletricidade à rede quando o consumo aumenta.
Esse mecanismo pode ajudar a reduzir desequilíbrios no sistema elétrico e melhorar a integração de fontes renováveis. Para que isso aconteça em escala, porém, os projetos precisam combinar regras estáveis, contratos capazes de gerar receita e financiamento compatível com os riscos tecnológicos e operacionais.
O que muda para investidores e próximos passos
Para investidores, a iniciativa pode contribuir para criar referências de análise em um mercado ainda novo, com mais informações sobre custos, receitas e riscos dos BESS. Isso não elimina a possibilidade de perdas nem garante que todos os projetos sejam financiáveis, mas pode reduzir uma das barreiras à entrada de capital.
O próximo passo será transformar a capacitação em programas para instituições financeiras e agentes públicos. No Brasil, a evolução do marco regulatório e a realização do leilão previsto para dezembro serão decisivas para mostrar se o interesse do mercado se converte em contratos e investimentos efetivos.
