O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, negocia com líderes europeus a criação de um status inédito de “membro associado” da União Europeia, sem que o Canadá precise aderir plenamente ao bloco ou ao seu mercado comum. A proposta ganhou força após o colapso das negociações comerciais com os Estados Unidos e prevê integração em setores estratégicos, como energia, defesa, inteligência artificial e minerais críticos.
O que significaria ser membro associado
A ideia é criar um nível de integração intermediário entre um acordo comercial tradicional e a adesão completa à UE. O Canadá poderia obter regras mais favoráveis para a circulação de bens, serviços e trabalhadores em áreas consideradas estratégicas, mas sem participar integralmente das instituições e das políticas comuns do bloco.
O país tem cerca de 41 milhões de habitantes, enquanto a União Europeia reúne 27 nações. Carney instruiu seu enviado especial à Europa a estudar as alternativas mais ambiciosas possíveis, mas ainda aquém da entrada formal no bloco. Autoridades europeias demonstraram abertura à proposta, embora não exista um acordo fechado.
Energia, tecnologia e defesa estão no centro
As conversas envolvem a aproximação das cadeias de fornecimento de energia, minerais usados em baterias, semicondutores e sistemas de inteligência artificial. Na prática, menos barreiras nesses setores poderiam facilitar contratos, investimentos e o trânsito de produtos entre o Canadá e os países europeus.
Também estão em discussão projetos conjuntos de cabos submarinos, centros de processamento de dados, armazenamento em nuvem e redes de satélites. A intenção é ampliar a infraestrutura digital fora do domínio de grandes empresas americanas. No setor energético, os governos avaliam alternativas para transportar gás natural canadense à Europa por novas rotas, reduzindo a dependência de caminhos que passam pelos Estados Unidos.
Crise com Washington acelerou a reorientação
A mudança de estratégia ocorre depois que as negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos fracassaram. Autoridades descrevem o impasse como a pior guerra comercial bilateral da história recente dos dois países, o que levou Ottawa a buscar novos parceiros para comércio, tecnologia, energia e segurança.
Carney vem conversando com líderes de praticamente todos os principais países europeus. O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, resumiu o movimento ao dizer que seria desejável o Canadá se tornar o “28º estado” da União Europeia, em vez de funcionar como o “51º estado” dos Estados Unidos.
Proposta enfrenta resistência dentro da Europa
Um dos obstáculos é que dez países europeus ainda não ratificaram um acordo comercial entre Canadá e União Europeia firmado há uma década. A dificuldade mostra que até mesmo acordos já negociados podem avançar lentamente quando dependem da aprovação de vários governos nacionais.
Há também receio de que Ottawa esteja usando a aproximação com a Europa como instrumento de pressão nas conversas com Washington. O bloco, por sua vez, evita oferecer condições excessivamente vantajosas, pois isso poderia estimular pedidos semelhantes de outros países e reabrir as tensões políticas deixadas pelo Brexit.
Próximos passos e efeitos para investidores
Carney deve apresentar sua visão ao Parlamento Europeu nesta quinta-feira. Em seguida, uma cúpula entre Canadá e União Europeia deve anunciar novos grupos de trabalho para detalhar as possibilidades de cooperação. O cronograma indica que o processo ainda está na fase de negociação e desenho institucional.
Para investidores, consumidores e trabalhadores, não há mudança imediata decorrente da proposta. Se avançar, porém, a integração poderá alterar rotas de energia, investimentos em infraestrutura e cadeias de fornecimento de tecnologia e minerais críticos. O resultado dependerá da capacidade de superar as resistências europeias e de transformar a negociação política em acordos efetivos.
