O El Niño já produz efeitos distintos no Brasil: o Sul registra chuvas acima do normal, enquanto o noroeste da Amazônia enfrenta precipitações abaixo da média. A mudança é relevante porque o fenômeno, oficialmente estabelecido e em intensificação, pode pressionar agricultura, energia, logística, saúde e segurança alimentar nos próximos meses.

Chuvas se concentram no Sul enquanto a Amazônia seca

O aquecimento das águas do Pacífico equatorial central e leste alterou a circulação da atmosfera. Com isso, aumentou a presença de sistemas frontais no Sul — zonas de encontro entre massas de ar com diferentes temperaturas e umidades —, favorecendo volumes de chuva superiores ao padrão habitual.

Na direção oposta, a deficiência de precipitações no noroeste da Amazônia amplia a preocupação com a seca e com incêndios de vegetação. A distribuição desigual das chuvas também pode afetar rios, transporte regional e disponibilidade de água, além de dificultar o planejamento das atividades agrícolas.

Previsão aponta El Niño muito forte no último trimestre

A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para mais de 90% a probabilidade de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026. A estimativa considera as condições observadas em agosto e a evolução esperada para a primavera e o início do verão no Hemisfério Sul.

O Cemaden já indicava desde julho que o fenômeno deveria ganhar força no segundo semestre. Estudos do órgão sobre anos anteriores apontam que o calor pode atingir todas as regiões do país. O evento de 2026-2027 ainda pode superar os registros de 2015-2016, com sete ondas de calor, e de 2023-2024, com nove.

Riscos crescem para energia, produção e serviços públicos

No Sul, a combinação de chuvas intensas e sistemas frontais aumenta a possibilidade de inundações, enchentes e deslizamentos. No Norte e no Nordeste, a seca eleva o risco de queimadas. Já o Centro-Oeste pode enfrentar mais calor e períodos de baixa umidade do ar, com efeitos sobre lavouras, saúde e consumo de água.

Os impactos econômicos podem aparecer em diferentes frentes. Perdas agrícolas tendem a afetar a oferta e os preços de alimentos; danos a estradas e ferrovias dificultam o transporte; e mudanças nas chuvas influenciam rios e reservatórios usados na geração de energia. A intensidade desses efeitos dependerá da evolução regional do fenômeno.

Governo prevê R$ 1,335 bilhão para preparação

O planejamento federal prevê R$ 1,335 bilhão para ações de preparação e resposta a possíveis eventos extremos. Os recursos devem apoiar abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais.

A estratégia envolve Cemaden, Inmet, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Inpe, em articulação com estados e municípios. Na saúde, a prioridade inclui kits emergenciais de assistência farmacêutica e hospitalar e a organização dos serviços do SUS. No combate ao fogo, o planejamento prevê também ampliar as redes de monitoramento de risco.

O que observar nos próximos meses

Para quem investe, o El Niño aumenta a importância de acompanhar empresas e setores expostos ao clima, como agronegócio, energia, transporte e seguros. Alterações na produção agrícola podem influenciar custos e receitas, enquanto enchentes e secas elevam despesas operacionais e riscos de interrupção.

Para consumidores e trabalhadores, os principais canais de impacto são o preço dos alimentos, a continuidade de serviços, os gastos com saúde e os danos a moradias e infraestrutura. O próximo passo será observar se a intensificação prevista entre outubro e dezembro confirma-se e como chuva, calor e seca se distribuem pelo território.

Impacto para a sociedade

O fenômeno pode afetar preços de alimentos, geração de energia, transporte, saúde pública e abastecimento, além de aumentar o risco de enchentes e queimadas. Para famílias e empresas, isso pode significar despesas maiores com alimentos, seguros, reparos e medidas de prevenção, embora o impacto final dependa da intensidade e da duração dos eventos climáticos.