A Polícia Federal (PF) apontou que o ex-chefe do Departamento de Supervisão do Banco Central, Belline Santana, recebeu pagamentos recorrentes de R$ 500 mil por mês de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em troca do repasse de informações sigilosas. O caso ganhou novos detalhes após o levantamento do sigilo de um relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Como funcionariam os pagamentos a Belline Santana

De acordo com a investigação, os pagamentos eram recorrentes e estavam relacionados à atuação de Santana como consultor de Vorcaro. Ao menos uma das transferências teria alcançado R$ 760 mil, conforme mensagens trocadas entre Vorcaro e Fabiano Zettel, advogado, empresário e cunhado do ex-banqueiro, apontado pela PF como operador financeiro.

O relatório também cita benefícios custeados por Vorcaro, como almoços, jantares e uma orientação turística em Paris. Para os investigadores, o conjunto de pagamentos e vantagens teria criado um canal de acesso privilegiado a informações internas do Banco Central.

Informações envolviam investigação sobre o Banco Master

A PF afirma que Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, gerente adjunto do Departamento de Supervisão do BC, repassaram dados internos relacionados à Operação Compliance Zero. A operação apura suspeitas de fraudes financeiras bilionárias ligadas ao antigo Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.

Segundo o documento, os dois servidores teriam ajudado Vorcaro no alinhamento de estratégias, na revisão de documentos e na realização de reuniões privadas. Parte desses encontros teria ocorrido na residência do ex-banqueiro, de acordo com os elementos reunidos pela investigação.

Outro servidor é citado por viagem e imóvel rural

No caso de Paulo Sérgio Souza, a PF aponta o pagamento de uma viagem à Disney, nos Estados Unidos. A investigação também identificou a aquisição considerada atípica de um imóvel rural do servidor.

Mensagens incluídas no relatório mostram Souza encaminhando a Vorcaro a portaria de sua nomeação para o cargo no departamento de supervisão. Em outro trecho, ele teria classificado como “prioridade absoluta” um encontro com o ex-banqueiro para tratar de interesses do Master.

O que foi revelado com a retirada do sigilo

A ligação entre Vorcaro e os dois servidores já era conhecida desde a prisão preventiva do ex-banqueiro. A retirada do sigilo, porém, detalhou pela primeira vez os valores e as vantagens que, segundo a PF, teriam sido oferecidos aos funcionários do BC.

O relatório tem 164 páginas e teve o sigilo levantado pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, na noite de quinta-feira, 10 de setembro. A medida ocorreu após um requerimento do presidente da Corte, ministro Edson Fachin.

Defesas negam vazamento e investigação continua

Belline Santana e Paulo Sérgio Souza foram afastados de suas funções e negam ter vazado informações internas do Banco Central para Vorcaro. Os dois também afirmam que podem demonstrar que pagaram do próprio bolso despesas relacionadas a viagens e outros benefícios mencionados no relatório.

As acusações ainda fazem parte de uma investigação, e a confirmação de responsabilidades dependerá do avanço do processo. O caso coloca sob análise a relação entre agentes de supervisão bancária e executivos investigados por possíveis fraudes, além de levantar dúvidas sobre os mecanismos de proteção de informações reservadas dentro do órgão regulador.