A Polícia Federal afirma que Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a informações sigilosas da Operação Compliance Zero, que resultou em sua prisão, e apresentou indícios de que o banqueiro tentou preparar uma fuga do país. Anotações no celular, contatos com integrantes do Banco Central e a mudança de uma viagem foram usados pela investigação para sustentar que a ida ao exterior não foi uma coincidência.
Anotações indicam conhecimento prévio da investigação
De acordo com a manifestação da PF divulgada nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, Vorcaro registrou em seu celular, em 21 de outubro de 2025, os nomes de delegados e agentes que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central quatro dias antes. O encontro tratava da investigação envolvendo o Banco Master.
Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, o banqueiro anotou uma pergunta sobre a proximidade de um interlocutor com o juiz federal Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Criminal Federal do Distrito Federal. O magistrado seria responsável pelos mandados judiciais contra ele. Para a PF, o nome e a jurisdição do juiz estavam protegidos por sigilo e não poderiam ter chegado licitamente ao investigado.
Mudança de viagem é tratada como indício de fuga
Na manhã de 17 de novembro, véspera da operação, Vorcaro alterou seus planos depois de conversar com advogados e registrou que havia “mudado o roteiro”. A investigação afirma que ele passou a organizar um deslocamento internacional.
No mesmo dia, o banqueiro informou a um portal de notícias que o Banco Master havia sido vendido ao grupo Fictor. Segundo a PF, a divulgação poderia funcionar como uma justificativa pública para a viagem. Na noite seguinte, Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava embarcar em um jato particular com destino aos Emirados Árabes.
Mensagens ao Banco Central no dia da prisão
Na manhã do dia em que foi preso, a partir das 6h34, Vorcaro pediu uma reunião com Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do BC, e Belline Santana, chefe de Supervisão Bancária da autarquia.
Segundo a PF, os dois atuavam como consultores do banqueiro dentro do Banco Central. Vorcaro insistiu para que o encontro ocorresse naquele mesmo dia. A reunião foi realizada virtualmente a partir das 13h35, com apoio de Paulo Sérgio e Belline. Para os investigadores, a urgência reforça a hipótese de que ele já sabia que seria alvo de uma fase ostensiva da apuração.
Investigação mira captação de cerca de R$ 50 bilhões
O caso também envolve o crescimento acelerado do Banco Master e o modelo utilizado para captar recursos no mercado. Conforme os documentos, a instituição emitiu cerca de R$ 50 bilhões em títulos, principalmente Certificados de Depósito Bancário (CDBs), instrumentos usados pelos bancos para levantar dinheiro com investidores.
O Master oferecia taxas consideradas elevadas em comparação com outras instituições financeiras, o que ajudava a atrair recursos em busca de maior rentabilidade. A PF e o Banco Central passaram a examinar se os ativos que davam suporte a essa estrutura tinham valor econômico compatível com o volume captado, incluindo operações envolvendo fundos de investimento.
O que acontece a partir de agora
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, de suspender parcialmente o sigilo dos processos tornou públicos os elementos reunidos pela PF. Os documentos não esclarecem, porém, como Vorcaro teria obtido as informações sobre a investigação, os agentes envolvidos e o juiz responsável pelos mandados.
Para quem acompanha bancos e investimentos, o caso aumenta a atenção sobre a qualidade dos ativos usados para sustentar emissões de CDBs e sobre os controles de supervisão do sistema financeiro. O próximo passo é o avanço das apurações sobre eventuais vazamentos, pagamentos a agentes públicos e a estrutura financeira do Banco Master, sem que as alegações apresentadas pela PF representem, por si só, uma condenação definitiva.
