Um estudo do Rabobank mostra que o aperto monetário pesa de forma desigual no agronegócio: o produtor rural pessoa física é mais afetado pela alta da Selic, sobretudo pelo aumento da inadimplência. Após um choque inesperado nos juros básicos, os atrasos desse grupo sobem cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses, enquanto não foram identificados efeitos persistentes sobre as empresas.

Inadimplência chega a 7,16% entre pessoas físicas

Em abril de 2026, a inadimplência dos produtores pessoa física alcançou 7,16%, mais que o dobro dos 3,08% registrados entre as pessoas jurídicas. A diferença se amplia nas operações contratadas a taxas de mercado: o índice chegou a 12,79% para pessoas físicas, ante 0,76% para empresas.

Nas linhas com taxas reguladas, que seguem regras específicas e costumam ter condições mais protegidas, os percentuais eram menores. A inadimplência estava em 1,80% entre pessoas físicas e em 0,50% entre pessoas jurídicas.

Linhas subsidiadas reduzem o repasse dos juros

O estudo relaciona essa diferença à estrutura do financiamento rural brasileiro. Parte relevante dos recursos é oferecida por meio de linhas direcionadas e subsidiadas do Plano Safra, o que reduz a velocidade e a intensidade com que as mudanças da Selic chegam ao custo dos empréstimos.

Essa proteção é mais importante para as empresas, de acordo com a análise. Embora as taxas cobradas das pessoas jurídicas tenham chegado perto ou superado 14% ao ano nos ciclos de aperto de 2021 a 2023 e de 2024 a 2025, não houve um efeito persistente sobre os atrasos desse segmento.

Juros afetam mais o custo do que o volume de crédito

A política monetária — conjunto de decisões que influencia os juros e as condições de financiamento — atua principalmente sobre o custo do crédito rural. Os efeitos sobre o volume de novas concessões e sobre o estoque total de empréstimos são considerados mais moderados.

Na prática, quando a Selic sobe, operações contratadas a taxas de mercado ficam mais caras e pressionam o fluxo de caixa do produtor. O impacto tende a ser maior para quem depende menos de linhas reguladas ou tem menor capacidade de absorver despesas financeiras adicionais.

Receita agrícola define o tamanho do problema

O Rabobank ressalta que a inadimplência não depende apenas dos juros. Os preços de soja e milho, o custo dos fertilizantes e a renda obtida com a produção também determinam a capacidade de pagamento do produtor.

Em 2013 e 2014, por exemplo, os juros subiram, mas os preços favoráveis da soja e do milho, combinados com relativa estabilidade dos fertilizantes, ajudaram a preservar o caixa. Algo semelhante ocorreu em 2021 e 2022, quando commodities agrícolas em níveis elevados compensaram parte da alta dos juros e dos insumos, agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

O que observar no crédito rural daqui em diante

O quadro mudou nos ciclos de aperto de 2024 e 2025. Soja e milho recuaram dos picos anteriores, enquanto os fertilizantes demoraram a apresentar uma normalização consistente. Com receitas menores e crédito mais caro, as margens foram comprimidas e a inadimplência aumentou principalmente entre pessoas físicas.

A conclusão é que a Selic alta funciona como um amplificador do risco quando vem acompanhada de queda na renda agrícola. Para produtores e instituições financeiras, os próximos indicadores relevantes são a evolução dos preços das commodities, dos custos de produção e das condições das linhas do Plano Safra. Para a economia, esses fatores ajudam a definir o custo e a disponibilidade do crédito destinado à produção rural.

Impacto para a sociedade

A Selic elevada encarece o financiamento usado para plantar, comprar insumos e manter a produção, com efeito mais forte sobre produtores rurais pessoa física. Se as margens do campo diminuem, a maior dificuldade de pagamento pode afetar a oferta e as condições de crédito no agronegócio.