O ingresso líquido de investidores estrangeiros na B3 chegou a R$ 10,8 bilhões no início de setembro, sinal de recuperação após a saída recorde de agosto, mas o movimento não ocorre de forma uniforme. Os dados indicam que o capital internacional está concentrando compras em determinados setores e ativos, em vez de voltar indiscriminadamente à Bolsa brasileira.

Setembro reduz parte da fuga registrada em agosto

Em agosto, os estrangeiros retiraram R$ 22,2 bilhões do mercado brasileiro, no pior resultado mensal desde março de 2020. Foram R$ 18,1 bilhões no mercado à vista, que envolve a compra e venda direta de ações, e R$ 4,1 bilhões em contratos futuros, instrumentos usados para negociar a expectativa sobre os preços dos ativos.

Na primeira parte de setembro, o fluxo se inverteu. Do total de R$ 10,8 bilhões que entraram, R$ 3,9 bilhões foram destinados ao mercado à vista e R$ 6,8 bilhões ao segmento futuro. Mesmo com a recuperação, o saldo anual do mercado à vista está em R$ 26,9 bilhões, bem abaixo do pico de R$ 69,1 bilhões registrado em meados de abril.

Compras mostram preferência por grupos específicos

A seletividade aparece no desempenho dos setores. Em agosto, quando a retirada foi generalizada, apenas seis dos 17 segmentos acompanhados registraram fluxo estrangeiro positivo. Bens de capital, saúde, alimentos e bebidas, além de papel e celulose, ficaram entre os grupos que receberam recursos.

Na outra ponta, saneamento, bancos, energia elétrica e petróleo, gás e petroquímicos concentraram parte relevante das vendas. Em levantamento setorial do Itaú BBA, as maiores saídas líquidas foram registradas em serviços públicos, com R$ 5,09 bilhões, financeiro, com R$ 3,99 bilhões, e energia, com R$ 3,96 bilhões. Em setembro, dez dos 17 setores passaram a apresentar fluxo positivo, mas os dados ainda apontam uma volta seletiva, e não uma recomposição ampla das posições.

Inflação, juros e eleições entram no radar

Três fatores ajudam a explicar a mudança de direção. O primeiro é o chamado trade eleitoral, movimento em que investidores antecipam possíveis efeitos da eleição sobre a economia e os preços dos ativos. A proximidade do ciclo eleitoral, porém, também tende a aumentar a volatilidade, porque pesquisas, propostas e alianças podem alterar rapidamente as expectativas.

O segundo fator é a melhora percebida nas perspectivas para inflação e juros. Uma desaceleração da atividade e uma inflação mais baixa podem abrir espaço para cortes de juros. Isso reduz o retorno esperado de aplicações de renda fixa e, em tese, aumenta a atratividade relativa de ações. O terceiro é a avaliação de que os preços de ativos brasileiros ficaram mais baixos após a queda da Bolsa, o que pode estimular compras específicas.

Recomendações internacionais ficaram divididas

O retorno ocorre apesar de avaliações negativas feitas em agosto. O JPMorgan rebaixou a recomendação para o Brasil de compra para neutra, e o Morgan Stanley também passou a adotar uma visão neutra, citando piora na relação entre risco e retorno. O movimento contribuiu para 11 quedas consecutivas do Ibovespa.

Em sentido contrário, o Bank of America elevou a recomendação para as ações brasileiras. O banco projeta um ciclo de redução de juros mais profundo do que o esperado pelo mercado, apoiado na desaceleração econômica e na perspectiva de inflação menor. A divergência mostra que o fluxo de setembro ainda depende da interpretação de cada instituição sobre o cenário doméstico.

O que o investidor deve acompanhar daqui em diante

O ingresso de R$ 10,8 bilhões melhora o sinal de curto prazo para a Bolsa, mas não elimina os riscos. A concentração das compras em poucos setores pode provocar desempenhos muito diferentes entre as empresas, enquanto a proximidade das eleições tende a manter oscilações elevadas.

Também será importante observar se o fluxo positivo se sustenta no mercado à vista, que representa uma exposição mais direta às ações, e se alcança uma parcela maior dos 17 setores monitorados. Para quem investe, trabalha ou consome, o movimento é principalmente um indicador das expectativas sobre juros, inflação e atividade: por enquanto, ele aponta melhora, mas ainda não confirma uma mudança duradoura na percepção sobre o Brasil.