O Grupo Ricoy, que já faturou R$ 1,64 bilhão em 2025 e chegou a operar 96 supermercados próprios em mais de 70 municípios de São Paulo, teve a falência decretada na última semana. A quebra encerra a trajetória de uma companhia que empregou mais de 5.000 pessoas e cresceu por meio da compra de redes menores, mas acabou pressionada por passivos, perda de competitividade e crédito mais caro.

O auge da expansão que ampliou os riscos

A origem do Ricoy está em supermercados de bairro da Zona Sul de São Paulo. A empresa surgiu da união da Yokoy, com 12 lojas, e da Riviera, com sete. Depois, incorporou ou passou a administrar marcas como Amais, Economax, Pão de Mel, Peri, Gimenez, Rei do Gado e Russi.

A estratégia buscava ganhar escala: mais unidades poderiam aumentar o volume de compras e o poder de negociação com fornecedores. Em 2009, o grupo assumiu lojas menores da rede Gimenes, e, em 2011, inaugurou um centro de distribuição na Grande São Paulo. O crescimento, porém, também tornou a operação mais complexa e elevou o volume de compromissos financeiros.

A aquisição da Russi deixou passivos no caixa

Em 2012, o Ricoy incorporou o Grupo Russi, de Jundiaí, que tinha 16 lojas e faturamento estimado em cerca de R$ 800 milhões. A operação envolveu também a assunção de aproximadamente R$ 200 milhões em dívidas, aumentando rapidamente o tamanho da companhia.

Anos depois, o próprio grupo apontou a aquisição como uma das origens da deterioração financeira. O laudo econômico-financeiro apresentado à Justiça citou impactos fiscais e tributários que não haviam sido integralmente previstos no valuation, o cálculo usado para estimar o valor do negócio. Esses passivos passaram a consumir recursos que deveriam financiar estoques, fornecedores, salários e despesas das lojas.

Atacarejo aumentou a disputa pelo consumidor

Também em 2012, o Ricoy inaugurou a primeira unidade do Vencedor Atacadista. O atacarejo, formato que combina preços mais baixos e venda em volumes maiores, ganhou espaço entre consumidores sensíveis a preço e passou a disputar justamente parte do público dos supermercados tradicionais.

A mudança pressionou uma atividade que já opera com margens estreitas. Quando o cliente migra para concorrentes com preços menores, a empresa precisa vender mais para preservar a receita. Se não consegue, o custo fixo das lojas pesa proporcionalmente mais sobre o caixa.

Menos crédito interrompeu o ciclo de operação

O Ricoy passou a depender cada vez mais de crédito para financiar uma operação que precisava repor mercadorias rapidamente. O problema se agravou quando o dinheiro ficou mais caro e a companhia descumpriu cláusulas financeiras de contratos, levando à retenção de recebíveis de cartão — valores de compras já realizadas que ainda seriam repassados à empresa.

Sem esses recursos, o grupo perdeu capacidade de comprar produtos. As lojas ficaram com menos mercadorias, venderam menos e passaram a sofrer maior pressão de fornecedores. Esse mecanismo transforma um problema financeiro em uma crise operacional: a falta de caixa reduz as vendas, e a queda das vendas reduz ainda mais o caixa disponível.

Venda de lojas e recuperação judicial não evitaram a quebra

A tentativa de reorganização incluiu venda de lojas, recuperação judicial, uma proposta de desconto de 85% para parte dos credores e uma troca de controle durante o processo. As medidas buscavam reduzir a dívida e preservar a operação enquanto a empresa negociava com quem tinha valores a receber.

O esforço, contudo, não interrompeu a perda de caixa. No último ano, apenas 33 lojas estavam abertas, uma redução de 63 unidades em relação ao pico de 96. Para quem investe, trabalha ou fornece para o varejo alimentar, o caso mostra que faturamento elevado não garante solvência: sem liquidez para manter estoques e pagar compromissos, uma rede grande também pode deixar de funcionar.

Impacto para a sociedade

A falência coloca em risco os empregos de uma rede que já teve mais de 5.000 funcionários e pode afetar fornecedores e consumidores das cidades atendidas. Para trabalhadores, o caso mostra como uma crise de caixa pode atingir rapidamente operações, postos de trabalho e pagamentos. Para os consumidores, a redução da rede significa menos lojas e alternativas de compra em algumas regiões.