Em depoimento à Justiça, Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, admitiu que promovia combinações com outros grandes investidores para derrubar ou impulsionar preços de criptomoedas. A declaração é o principal elemento novo do caso porque descreve um mecanismo de manipulação de mercado e ocorre na fase final do processo que apura crimes contra o sistema financeiro.
Como funcionariam as operações combinadas
Glaidson afirmou ser uma “baleia”, termo usado para identificar investidores com volume suficiente de ativos para influenciar as cotações. Segundo ele, essas pessoas poderiam combinar apostas na queda e operações de alavancagem, que permitem movimentar uma posição maior do que o dinheiro inicialmente aplicado, ampliando ganhos e perdas.
Na prática, uma venda concentrada ou uma aposta alavancada contra determinada moeda poderia pressionar seu preço para baixo. Outros participantes, ao perceberem a queda, poderiam vender para limitar perdas, reforçando o movimento. O mesmo princípio poderia ser usado no sentido contrário para estimular uma alta. Glaidson resumiu a estratégia dizendo que alguns participantes lucravam enquanto outros acabavam vendendo no prejuízo.
O esquema da GAS e os valores envolvidos
Glaidson e sua esposa, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, são acusados de liderar uma organização que operava por meio da GAS Consultoria, apresentada aos clientes como uma alternativa de investimento em criptomoedas. A empresa prometia retornos acima dos praticados no mercado e atraiu milhares de pessoas, incluindo artistas, jogadores de futebol e investidores que chegaram a contrair empréstimos.
As autoridades calculam que o esquema movimentou mais de R$ 38 bilhões e pode ter deixado 77 mil vítimas. Na Justiça, os credores cobram quase R$ 3 bilhões em ressarcimento. Glaidson disse que os contratos eram individuais e relatou que funcionários levavam dinheiro em espécie de clientes até São Paulo, enquanto os valores eram transferidos para a carteira da GAS.
O papel atribuído a Mirelis
Mirelis foi presa nos Estados Unidos três anos depois de deixar o Brasil, após a prisão do marido, em 2021. O Ministério Público Federal afirma que ela dividia a liderança do esquema, mas ela nega a acusação e diz que não administrava a carteira de clientes.
Em depoimento, Mirelis afirmou que seu trabalho era estudar criptomoedas, fazer operações de negociação e tentar multiplicar os recursos. O Ministério Público identificou ainda o saque de 4,5 mil bitcoins a partir de contas associadas ao caso, valor estimado em cerca de R$ 1 bilhão na ocasião. Ela declarou que retirou apenas criptomoedas pessoais para movimentá-las entre ativos da GAS.
Carteira digital segue cercada de dúvidas
Um dos pontos ainda sem resposta é quanto dinheiro permanece na carteira de criptoativos de Glaidson. A chamada cold wallet é um dispositivo externo mantido sem conexão com a internet, cujo acesso depende de uma senha controlada pelo proprietário.
O aparelho está em um cofre da Polícia Federal. Glaidson não revelou o valor armazenado nem forneceu a senha, alegando risco à própria integridade física. Ao mesmo tempo, afirmou que há recursos suficientes para pagar os 77 mil credores.
O que acontece na reta final do processo
Glaidson, Mirelis e outras 15 pessoas respondem à ação penal. Caso sejam condenados, poderão receber penas superiores a 40 anos de prisão. A defesa de Glaidson sustenta que ele é inocente e afirma que a interrupção dos pagamentos da GAS ocorreu por determinação judicial.
A admissão sobre as combinações no mercado não encerra a discussão sobre a responsabilidade criminal, que ainda será avaliada pela Justiça. Para quem investe, o caso reforça o risco de movimentos artificiais em mercados com menor liquidez e a importância de distinguir uma oscilação normal de preço de uma operação coordenada para provocar perdas ou ganhos.
