Mais de 1 milhão de afegãos foram obrigados a retornar do Paquistão e do Irã até agosto de 2026, elevando para cerca de 6 milhões o total de pessoas devolvidas ao Afeganistão em menos de três anos. O movimento, considerado o maior deslocamento transfronteiriço em curso, ocorre enquanto o país continua sob o governo do Talibã e enfrenta dificuldades para receber famílias que muitas vezes não têm casa, trabalho ou sequer vínculos no território.
Retornos já somam população equivalente à de um país pequeno
O número foi divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). A organização afirma que nunca havia registrado, na história recente, um retorno dessa dimensão ao Afeganistão. Muitos dos deportados passaram décadas nos países vizinhos; outros nasceram no Paquistão ou no Irã e nunca tinham vivido no país de origem de suas famílias.
O fluxo aumentou depois que Paquistão e Irã endureceram as medidas contra imigrantes afegãos sem documentação. Organizações humanitárias e de direitos humanos afirmam, porém, que as operações também atingem pessoas com registros oficiais. O próprio Paquistão declarou que nem mesmo os afegãos portadores de cartões de registro estão necessariamente protegidos contra a expulsão.
Famílias chegam sem estrutura para recomeçar
Na passagem de Torkham, entre o Paquistão e o Afeganistão, idosos caminham com dificuldade, crianças chegam carregando animais e famílias transportam seus pertences em caminhões. O local, conhecido como “Ponto Zero”, marca para muitos o fim de uma vida construída no exterior e o início de uma permanência incerta.
Acampamentos próximos à fronteira foram montados por organizações humanitárias para receber os recém-chegados por alguns dias. Os abrigos de lona e plástico, contudo, já aparecem rasgados e deteriorados. Parte dos deportados não tem para onde ir depois do registro, o que aumenta a pressão sobre a ajuda emergencial e os serviços locais.
Por que Paquistão e Irã ampliaram as expulsões
Os dois países abrigam há décadas milhões de afegãos que deixaram o país em busca de segurança, trabalho ou refúgio. A permanência prolongada criou comunidades inteiras fora do Afeganistão, mas também deixou muitos dependentes de documentos temporários ou sem status migratório regular.
Com o endurecimento das políticas de imigração, famílias passaram a relatar abordagens policiais, preconceito e assédio. Um afegão que viveu 45 anos no Paquistão afirmou que ficou arrasado ao perder a casa, embora também tenha dito sentir alívio por escapar do tratamento recebido das autoridades.
O futuro das meninas preocupa as famílias
O retorno acontece em um país governado pelo Talibã, onde meninas continuam impedidas de frequentar o ensino médio e a universidade. Para mulheres e famílias que passaram anos fora, a volta representa não apenas uma mudança econômica e geográfica, mas também a necessidade de se adaptar novamente a restrições sociais e educacionais.
Uma das afegãs retornadas afirmou temer especialmente pelo futuro das meninas. A preocupação se soma à falta de renda, moradia e alimentação, tornando o recomeço mais difícil para pessoas que, em muitos casos, nunca viveram no Afeganistão.
O que observar daqui para frente
Não há sinais de que as expulsões estejam perto do fim. Enquanto o Paquistão e o Irã mantiverem as medidas atuais, o número de retornados pode continuar crescendo, pressionando os acampamentos de fronteira e as organizações responsáveis pelo atendimento inicial.
Para quem acompanha o cenário internacional, o principal ponto é a combinação entre deportações em massa, crise humanitária e restrições impostas pelo Talibã. Para os próprios afegãos, o efeito é imediato: milhões precisam reconstruir a vida em um país que muitos não conhecem e que tem capacidade limitada para absorver uma população tão grande em pouco tempo.
