Subsídios agressivos e preços artificialmente baixos podem deixar de ser uma estratégia de entrada e se transformar em instrumento para fechar o mercado de delivery, aponta estudo do Instituto Esfera de Estudos e Inovação. O alerta é que empresas com acesso a muito capital poderiam sustentar prejuízos por tempo prolongado, enfraquecer rivais e reduzir as opções para restaurantes, consumidores e entregadores.

Quando o subsídio deixa de estimular a concorrência

Na fase inicial de uma plataforma, oferecer descontos a clientes, restaurantes e entregadores pode ajudar a formar a escala necessária para viabilizar o negócio. Com mais pedidos, a empresa tende a diluir custos de tecnologia, logística e atendimento, tornando a operação mais eficiente.

O risco apontado pelo estudo aparece quando essa política continua ou se intensifica depois da fase de entrada. Nesse cenário, uma companhia com maior capacidade financeira consegue operar no vermelho e manter preços abaixo do nível que concorrentes menores conseguem acompanhar. A estratégia pode atrair usuários no curto prazo, mas dificultar a permanência de rivais no mercado.

Como a guerra de promoções afeta restaurantes e usuários

O levantamento cita uma experiência internacional na China, baseada em uma pesquisa com mais de 40 mil estabelecimentos. A guerra promocional elevou o volume médio diário de pedidos, mas reduziu a receita efetiva e os lucros dos restaurantes.

Isso ocorre porque mais pedidos não significam necessariamente maior ganho. Descontos financiados pelas plataformas, taxas e custos adicionais podem reduzir o valor que efetivamente fica com o restaurante. Para o consumidor, a retirada de concorrentes também pode significar menos alternativas, menor variedade de promoções e maior dependência de uma única plataforma no futuro.

Por que o estudo defende atuação preventiva do Cade

O trabalho recomenda que o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acompanhe preventivamente estratégias de subsídio que possam evoluir de mecanismo de entrada para instrumento de exclusão. A ideia é agir antes que uma concentração elevada já esteja consolidada e seja mais difícil recuperar a competição.

Um dos efeitos destacados é a redução do multi-homing, prática em que restaurantes, consumidores e entregadores usam simultaneamente diferentes aplicativos. Se contratos ou incentivos dificultarem essa atuação em várias plataformas, a concorrência pode diminuir mesmo antes de uma empresa dominar formalmente o mercado.

Investigação sobre contratos da 99Food está em andamento

O estudo foi divulgado enquanto o Cade aprofunda uma investigação sobre cláusulas contratuais adotadas pela 99Food com restaurantes. Em 2 de setembro de 2026, a autarquia determinou novas diligências para examinar, entre outros pontos, se os contratos afetam a possibilidade de os estabelecimentos trabalharem ao mesmo tempo com aplicativos concorrentes.

O processo começou a partir de uma representação da Keeta, que alegou que os contratos poderiam restringir a atuação dos restaurantes em outras plataformas. O Cade negou, por enquanto, o pedido de medida preventiva apresentado pela empresa e ressaltou que a continuidade da investigação não representa conclusão de que houve infração à ordem econômica.

O que observar no mercado de delivery daqui para frente

Para restaurantes e trabalhadores, o ponto central será saber se as promoções ampliam de forma sustentável a demanda ou apenas transferem receita e margem entre os participantes. Para consumidores, a disputa pode manter preços baixos no curto prazo, mas uma eventual redução do número de plataformas tende a diminuir as alternativas disponíveis.

O estudo foi elaborado pelo Instituto Esfera em parceria com o iFood, empresa diretamente interessada na disputa concorrencial do setor, e assinado por Fernando Meneguin, diretor acadêmico da instituição. Por isso, suas conclusões devem ser analisadas junto com os dados e manifestações reunidos no processo do Cade, que ainda não chegou a uma decisão final.