Os Estados Unidos buscam ampliar o controle sobre os ativos petrolíferos da Venezuela e reduzir a influência chinesa no país, numa estratégia que pode colocar em risco bilhões de dólares devidos a Pequim. A ofensiva transforma a produção venezuelana em um novo ponto de disputa entre Washington e Beijing e pode afetar a forma como as receitas do petróleo serão usadas para pagar credores estrangeiros.

Washington quer bloquear influência chinesa na produção

O governo de Donald Trump anunciou planos para assumir o controle de mais de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo bruto da Venezuela. A iniciativa é apresentada como parte da chamada “Doutrina Donroe”, incorporada à Estratégia de Segurança Nacional americana, que defende o direito dos Estados Unidos de impedir que rivais controlem ativos considerados estratégicos no hemisfério.

Além da China, a Casa Branca incluiu a Rússia entre os “atores estrangeiros maliciosos” que pretende afastar da economia venezuelana. O objetivo declarado é garantir que a influência americana na região não seja contestada, mas o movimento também cria uma disputa sobre quem terá acesso à produção e às receitas futuras do petróleo.

Nova produção pode deixar dívida com Pequim sem garantia

O próximo passo de Washington é tentar reestruturar a dívida venezuelana, que inclui bilhões de dólares devidos a bancos chineses. Parte desses compromissos está vinculada à entrega de barris de petróleo que não foram enviados. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que a China não terá direitos sobre a receita da nova produção venezuelana.

Na prática, isso reduz uma das principais fontes de pagamento de Caracas a Pequim. Se os campos passarem a ser administrados sob influência americana e a receita for direcionada a outros projetos ou credores, a recuperação dos recursos chineses pode ficar ainda mais distante.

Participação em 17 campos amplia presença americana

No início desta semana, o governo dos Estados Unidos negociou uma participação de 35% na North American Blue Energy Partners, empresa privada do empresário venezuelano Alejandro Betancourt. O acordo dá acesso a 17 campos petrolíferos, embora ainda não esteja claro quais projetos ligados à China estão incluídos no pacote de concessão com duração de 100 anos.

As autoridades americanas e venezuelanas não divulgaram publicamente a lista dos campos abrangidos. Essa falta de detalhamento mantém dúvidas sobre a extensão do controle dos Estados Unidos e sobre a possibilidade de ativos chineses serem diretamente excluídos ou submetidos a novas condições.

China reage com cautela antes de encontro entre líderes

O governo chinês afirmou que os direitos e interesses legítimos do país na Venezuela devem ser protegidos. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, também declarou que a cooperação sino-venezuelana é protegida pelo direito internacional e não diz respeito a terceiros.

A reação, até agora, foi moderada. A China reduziu sua exposição à Venezuela nos últimos anos, e o petróleo venezuelano representou 4% das importações chinesas de petróleo em 2025. Desde que o governo Trump assumiu o controle dos ativos, após a captura do então presidente Nicolás Maduro no início de 2026, nenhum carregamento venezuelano foi registrado chegando à China.

Por isso, o impacto econômico imediato para Pequim tende a ser menor que o efeito político. O episódio ocorre antes da primeira visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos em mais de uma década, num momento em que os dois países já negociam temas como comércio e o apoio chinês ao Irã.

O que observar nos preços e nos investimentos

Para o mercado de petróleo, o ponto central será saber se a mudança de controle altera o ritmo de produção venezuelana e o destino dos carregamentos. Uma expansão da oferta poderia pressionar preços internacionais, enquanto interrupções, sanções ou dificuldades operacionais teriam efeito contrário. O material disponível não indica, porém, uma reação específica das cotações.

Para quem investe, a disputa acrescenta risco geopolítico a empresas e contratos ligados ao petróleo venezuelano. Também aumenta a incerteza sobre a capacidade de Caracas de honrar dívidas e sobre a segurança jurídica de ativos estrangeiros. Os próximos sinais serão a identificação dos campos incluídos no acordo, os termos da reestruturação da dívida e o tratamento dado ao tema no encontro entre Trump e Xi.