As expectativas para os próximos passos do Federal Reserve (Fed) em setembro estão divididas entre a manutenção dos juros e uma possível alta, uma incerteza que pode aumentar a volatilidade das bolsas globais. Ao mesmo tempo, preocupações com a situação fiscal dos Estados Unidos e com os juros de longo prazo colocam pressão adicional sobre ações, crédito e moedas.

Fed enfrenta dilema entre inflação e atividade econômica

A política monetária americana será o principal foco dos mercados neste mês. Parte dos investidores espera que o banco central mantenha os juros, enquanto outra parcela considera possível uma elevação na reunião de setembro. Para o fim de 2026, a expectativa de pelo menos uma alta era vista como praticamente certa.

O dilema é controlar a inflação e preservar a credibilidade do Fed sem provocar uma desaceleração excessiva da economia. Juros mais altos por mais tempo tornam o crédito mais caro para famílias e empresas, reduzem o valor presente dos lucros futuros e costumam pressionar ações, especialmente as de companhias mais dependentes de financiamento.

Agosto terminou positivo, apoiado por lucros e inteligência artificial

Apesar das incertezas, os mercados globais tiveram desempenho positivo em agosto. O MSCI ACWI, índice que reúne ações de países desenvolvidos e emergentes, subiu 2,7% no mês. O S&P 500, principal índice acionário dos Estados Unidos, também avançou 2,7% e renovou sua máxima histórica.

A alta foi sustentada pelo crescimento dos lucros das empresas americanas e pela continuidade dos investimentos em inteligência artificial. O lucro das companhias dos Estados Unidos cresceu 33,4% na comparação anual, desconsiderando efeitos não recorrentes, maior avanço desde 2021. As ações de semicondutores também se recuperaram após a queda de julho, ajudando as bolsas da Coreia do Sul e de Taiwan, que subiram 15,1% e 11,9%, respectivamente.

Juros longos e dívida americana aumentam a cautela

Os chamados juros longos influenciam financiamentos, empréstimos e a avaliação de empresas. Eles oscilaram com força diante da preocupação com o aumento dos gastos e da dívida dos Estados Unidos.

Outro fator de pressão é a emissão de títulos por grandes empresas de tecnologia, conhecidas como hyperscalers, para financiar a infraestrutura necessária à expansão da inteligência artificial. Quando cresce a oferta de títulos, os investidores podem exigir remuneração maior para comprá-los. Isso eleva as taxas e reduz a atratividade de setores como imóveis e serviços públicos.

China e emergentes ganham espaço no cenário global

A avaliação para Estados Unidos, Europa e Reino Unido é neutra, indicando equilíbrio entre riscos e oportunidades. Já a China e os mercados emergentes aparecem em posição mais favorável.

Na China, empresas ligadas à inteligência artificial são apoiadas por investimentos e incentivos do governo. Entre os emergentes, um dólar mais fraco, a entrada de capital e a queda relativa dos juros ajudam o ambiente. Ainda assim, o desempenho recente foi desigual: o fundo ligado à tecnologia chinesa caiu 9,4% em agosto, o indicador mais amplo do país recuou 3,1% e o Brasil perdeu 1,7%.

O que investidores, empresas e consumidores devem acompanhar

A reação das bolsas em setembro dependerá principalmente da comunicação do Fed e da trajetória dos juros longos. Uma postura mais dura pode fortalecer o dólar e pressionar ações globais; uma sinalização menos agressiva tende a aliviar as condições financeiras, embora também possa refletir preocupações com o crescimento.

Além da decisão americana, os mercados devem monitorar as tensões tecnológicas entre Estados Unidos e China, a situação fiscal dos países desenvolvidos e a guerra no Oriente Médio, que pode manter o petróleo em níveis elevados. Para o Brasil, esses fatores podem influenciar o câmbio, o custo de financiamento e o comportamento dos ativos locais, sem eliminar os riscos associados às eleições na América Latina e à economia doméstica.

Impacto para a sociedade

As decisões do Federal Reserve podem afetar o dólar, os juros cobrados no mercado internacional e o preço de produtos importados pelo Brasil. Se os juros americanos permanecerem elevados por mais tempo, o crédito pode ficar mais caro e empresas e governos podem enfrentar condições menos favoráveis para captar recursos, com possíveis reflexos sobre emprego e investimentos.