O Ibovespa recuou 0,74%, aos 183.822 pontos, e perdeu a marca dos 184 mil nesta sexta-feira (4), enquanto o dólar comercial avançou para R$ 5,13. A piora ocorreu após os Estados Unidos registrarem criação de vagas acima do esperado em agosto, aumentando as apostas de que o Federal Reserve, o banco central americano, poderá manter ou elevar os juros em sua próxima decisão.

Payroll quase triplica expectativa dos analistas

O relatório de emprego americano, conhecido como payroll, mostrou a abertura de 162 mil vagas fora do setor agrícola em agosto. A previsão era de aproximadamente 56 mil postos. A taxa de desemprego ficou em 4,1%, em linha com o consenso, mas os números de junho e julho foram revisados para cima.

O resultado reduziu o temor de uma deterioração acentuada do mercado de trabalho americano. A média móvel trimestral de criação de empregos passou de 38 mil vagas em julho para 71 mil em agosto, segundo avaliação da economista Andressa Durão, do ASA. Além disso, a taxa de participação da força de trabalho aumentou, depois de uma sequência de quedas no início do ano.

Mercado aumenta aposta de alta de juros nos EUA

Após o payroll, os contratos acompanhados pela ferramenta CME FedWatch passaram a indicar probabilidade de 60,2% de alta dos juros americanos para a faixa de 3,75% a 4% na reunião de setembro. Antes da divulgação do relatório, essa parcela era de 52%. As apostas de manutenção recuaram para 39,8%.

Juros mais altos nos Estados Unidos tornam os títulos do Tesouro americano mais atrativos e costumam reduzir o interesse por ativos considerados mais arriscados, como ações de países emergentes. O movimento também tende a fortalecer o dólar, pressionando moedas como o real. O rendimento do título americano de dois anos atingiu o maior nível desde janeiro de 2025.

Ações brasileiras devolvem parte dos ganhos recentes

A reação negativa no Brasil também refletiu uma realização de lucros depois da forte valorização recente da Bolsa. Na avaliação de Alexandre Wolwacz, o Stormer, o payroll pode favorecer Wall Street, mas não necessariamente o Ibovespa, que já havia subido de forma expressiva.

Entre os papéis de maior peso, Vale recuava 0,64%, enquanto Petrobras perdia 0,84% nas ações preferenciais e 1,01% nas ordinárias. Itaú Unibanco caía 1,05%, Banco do Brasil, 1,11%, e Bradesco, 0,45%. Usiminas liderava as baixas, com queda de 3,84%, seguida por Natura, que recuava 2,93%.

Dólar e juros refletem maior cautela

A alta da moeda americana ocorreu mesmo após uma semana de fortalecimento do real, influenciada por mudanças nas expectativas eleitorais e por uma redução temporária do prêmio de risco fiscal. Esse movimento anterior havia beneficiado bancos, varejistas, construtoras e empresas endividadas, mas o dado americano mudou o humor dos investidores.

Os juros futuros operavam de forma mista, enquanto o dólar avançava. No exterior, os índices futuros de Wall Street também mostravam desempenho dividido: Dow Jones e S&P 500 recuavam cerca de 0,3% e 0,25%, respectivamente, enquanto o Nasdaq tinha leve alta.

Inflação americana será o próximo teste

O payroll reforçou a importância dos próximos indicadores de preços dos Estados Unidos. Os índices de inflação ao consumidor e ao produtor, conhecidos como CPI e PPI, serão divulgados na semana seguinte e sairão antes da decisão do Fed prevista para 18 de setembro.

Se esses dados também mostrarem pressão inflacionária, o mercado poderá consolidar a expectativa de juros mais elevados nos Estados Unidos, mantendo o dólar forte e pressionando o Ibovespa. Para quem investe, consome ou trabalha no Brasil, o próximo passo será acompanhar a combinação entre inflação americana, câmbio e reação do Banco Central, já que uma moeda mais depreciada pode encarecer importações e dificultar a queda dos juros locais.

Impacto para a sociedade

O dado de emprego dos Estados Unidos pode manter os juros americanos elevados por mais tempo, fortalecendo o dólar e encarecendo produtos e serviços importados, como combustíveis, eletrônicos e insumos industriais. Se o câmbio pressionar a inflação brasileira, o Banco Central poderá enfrentar mais dificuldade para reduzir a Selic, afetando o custo do crédito e do financiamento para famílias e empresas.