O diretor do Federal Reserve Christopher Waller indicou que deve apoiar a manutenção dos juros americanos na reunião de 15 e 16 de setembro, desde que os próximos dados de inflação não tragam surpresas negativas. Ele também avaliou que a taxa neutra — nível de juros que não estimula nem freia a economia — pode estar mais alta, uma sinalização relevante para o ritmo de cortes ou altas no futuro.

Waller vê sinais recentes de desinflação

Waller reconheceu que a inflação continua “significativamente acima” da meta de 2% do Fed. Ainda assim, afirmou que os dados mais recentes sugerem que o processo de desinflação, isto é, de desaceleração dos preços, finalmente começa a ganhar força.

Em julho, a inflação cheia estava em 3,7% em 12 meses, enquanto o núcleo, que exclui itens mais voláteis, marcava 3,3%. Para Waller, porém, os números anuais não capturam bem o comportamento mais recente. A inflação em três meses, medida pelo indicador preferido do Fed, recuou de 4,76% em fevereiro para 3,05% atualmente.

Tarifas e energia tiveram efeito limitado

O diretor afirmou que os impactos das tarifas comerciais provavelmente foram moderados até agora. Ele também disse que a alta dos preços de energia não produziu efeitos relevantes sobre os demais segmentos da economia, reduzindo o risco de uma aceleração disseminada da inflação.

Waller acrescentou que alguns preços de serviços classificados como “não mercadológicos” são estimados, e não observados diretamente, e podem estar pressionando os índices. Além disso, mudanças previstas na forma de cálculo do índice de preços de gastos de consumo pessoal podem revisar para baixo leituras divulgadas no início do ano.

Mercado reduz aposta em alta dos juros

A fala alterou rapidamente as expectativas dos operadores. A probabilidade implícita de uma alta de juros na reunião de setembro caiu para 48,4%, uma redução de aproximadamente 15 pontos percentuais em relação à quarta-feira, conforme o indicador FedWatch, da CME.

Waller argumentou que elevar os juros em 0,25 ponto percentual agora não faria a inflação voltar imediatamente à meta de 2%. Na avaliação dele, seria possível esperar uma reunião para observar a evolução dos preços, sem abandonar a possibilidade de endurecer a política monetária depois.

Posição contrasta com alerta de Kevin Warsh

A avaliação diverge do tom adotado na semana passada pelo presidente do Fed, Kevin Warsh. Em discurso no simpósio anual de Jackson Hole, ele afirmou que as leituras mensais mais fracas de inflação ainda não demonstravam melhora significativa nas tendências subjacentes.

Warsh havia indicado que o banco central ainda teria trabalho pela frente caso os dados não colaborassem. Waller, por outro lado, considera que a trajetória recente é encorajadora, embora tenha deixado claro que sua posição pode mudar se houver reversão do progresso em agosto.

Inflação da próxima semana será decisiva

Antes da reunião, o Fed receberá os índices de preços ao consumidor e ao produtor, que serão divulgados na próxima semana. Esses indicadores ajudam a compor o índice de gastos de consumo pessoal, conhecido como PCE, principal referência de inflação da autoridade monetária.

Waller afirmou que apoia manter a taxa no nível atual se os dados confirmarem a melhora, mas alertou que uma aceleração da inflação poderia levá-lo a defender uma política mais restritiva. Para investidores brasileiros, o resultado pode influenciar o dólar, os fluxos para mercados emergentes e o custo global do crédito; para consumidores e empresas, mudanças no câmbio também podem afetar produtos importados e insumos.

Impacto para a sociedade

A decisão do Fed pode afetar o dólar, os preços de produtos importados e as condições de crédito no Brasil. Uma postura mais cautelosa sobre altas de juros tende a reduzir a pressão sobre moedas e mercados emergentes, mas o efeito final dependerá dos próximos dados de inflação nos Estados Unidos.