O Ibovespa fechou esta quarta-feira (2) em alta de 3,05%, aos 185.205,09 pontos, enquanto o dólar à vista recuou 0,91%, a R$ 5,1065. Foi a 11ª sessão consecutiva de ganhos da Bolsa, que chegou a 186.028,06 pontos durante o pregão, no maior nível desde o início de maio. O movimento mostra que as expectativas eleitorais passaram a influenciar com força os preços dos ativos brasileiros.
Pesquisa Quaest aumenta aposta em mudança de governo
A reação positiva veio após a divulgação de uma nova pesquisa Quaest. Em um eventual segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 42% das intenções de voto, contra 41% de Flávio Bolsonaro (PL), um empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. No primeiro turno, Lula tem 37%, Flávio, 29%, e Augusto Cury (Avante), 10%.
A distância numérica entre Lula e Flávio no segundo turno diminuiu de três para um ponto percentual em relação ao levantamento anterior. Parte dos investidores interpreta uma disputa mais equilibrada como sinal de maior possibilidade de mudança no comando do país em 2027 e de alteração na condução da política fiscal, especialmente em relação ao controle das despesas e à trajetória da dívida pública.
Essa leitura não representa uma mudança efetiva na política econômica, mas altera as expectativas sobre o futuro. Como os preços de ações, juros e câmbio incorporam projeções, uma pesquisa capaz de modificar as chances atribuídas aos candidatos pode provocar ajustes imediatos nos mercados.
Queda dos juros futuros favorece ações domésticas
As taxas dos contratos de juros futuros recuaram após a pesquisa, renovando as mínimas do dia. Esses contratos refletem as expectativas para os juros e a inflação adiante. Quando as taxas longas caem, diminui o custo financeiro projetado para empresas e consumidores, e os lucros futuros das companhias passam a valer mais no cálculo dos investidores.
O efeito costuma ser mais forte sobre ações cíclicas, como varejistas, empresas ligadas ao consumo e companhias mais dependentes de crédito. A Magazine Luiza (MGLU3) liderou as altas do índice, com avanço de 16,88%, a R$ 5,40, também impulsionada pelo anúncio de uma parceria para vender produtos na plataforma do Mercado Livre.
Vamos (VAMO3) subiu 16,11%, e Azzas 2154 (AZZA3) avançou 11,28% após anunciar uma reorganização societária. No setor financeiro, Banco do Brasil (BBAS3) ganhou 5,50%, Itaú Unibanco (ITUB4) subiu 3,84%, BTG Pactual (BPAC11) avançou 3,06%, Bradesco (BBDC4) teve alta de 2,13% e Santander Brasil (SANB11) valorizou 1,98%.
Vale, Petrobras e bancos sustentam o índice
As ações de maior peso também contribuíram para a alta. Vale (VALE3), que representa cerca de 11% da carteira teórica do Ibovespa, subiu 3,19%, a R$ 80,80. Petrobras avançou pelo quinto pregão seguido: PETR3 ganhou 2,23%, a R$ 53,54, e PETR4 subiu 2,84%, a R$ 48,20.
O desempenho da Petrobras acompanhou a valorização do petróleo no exterior, em meio à escalada das tensões no Oriente Médio. O Brent voltou a operar acima de US$ 95 por barril. Juntas, Vale, Petrobras e as ações de bancos respondem por aproximadamente metade da carteira do índice, o que ajuda a explicar a intensidade da alta.
A valorização foi quase generalizada: apenas Cosan (CSAN3), com queda de 4,53%, Rumo (RAIL3), que recuou 4,18%, e Totvs (TOTS3), com baixa de 0,71%, terminaram o dia no campo negativo. O volume financeiro somou R$ 29,9 bilhões.
Exterior melhora, mas Brasil se descola dos mercados globais
Em Nova York, o Dow Jones subiu 0,56%, o S&P 500 ganhou 0,46% e o Nasdaq avançou 0,45%. A recuperação veio após quatro sessões de quedas, com alívio nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e dados mais fracos do mercado de trabalho privado.
O relatório da ADP mostrou a criação de 38 mil vagas no setor privado em agosto, abaixo do esperado e inferior aos 46 mil postos registrados em julho, em dado revisado. O resultado reforçou a avaliação de que o Federal Reserve pode adotar uma postura monetária menos restritiva. O mercado, porém, ainda aguarda o relatório oficial de emprego, o payroll, previsto para sexta-feira (4).
Dólar recua, mas reação exige cautela
O dólar caiu pela terceira sessão consecutiva e acumulou baixa de 1,72% nas últimas três sessões. A entrada ou redução da venda de ações brasileiras por investidores estrangeiros também ajudou a sustentar o real e a Bolsa, segundo avaliações de estrategistas.
Analistas, contudo, alertaram que a reação pode ter sido exagerada. O cenário fiscal continua sendo um desafio, independentemente do resultado eleitoral, e uma eventual frustração com as pesquisas pode provocar correção nos ativos. No médio prazo, uma consulta com 26 estrategistas de câmbio apontou expectativa mediana de dólar a R$ 5,23 em 12 meses.
Além da eleição, o mercado acompanhou as revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a aprovação, na CCJ do Senado, da proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. Para quem investe, o próximo período combina forte influência política, dados de emprego nos Estados Unidos e oscilações nos juros futuros — fatores que podem manter a volatilidade elevada.
