A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao governo medidas contra a União Europeia após o bloco anunciar o embargo à carne brasileira e solicitou ao Ministério da Agricultura uma investigação sobre a qualidade do azeite importado. A entidade quer acionar um mecanismo de compensação comercial e apurar se produtos vendidos como extravirgens correspondem à classificação declarada na importação.

CNA quer compensação pelo embargo à carne

Em ofício enviado ao Itamaraty, o presidente da CNA, João Martins, pediu o acionamento do Mecanismo de Reequilíbrio de Concessões (MRC). O instrumento permite ao Brasil buscar a restauração do equilíbrio comercial por meio de compensações equivalentes, incluindo a suspensão de concessões tarifárias feitas à União Europeia.

Na prática, a medida pode abrir caminho para que o governo brasileiro responda ao bloqueio com restrições ou mudanças em benefícios concedidos a produtos europeus. O pedido foi fundamentado nos prejuízos esperados para o setor agropecuário com a suspensão das compras europeias de produtos de origem animal.

Embargo começa em 3 de setembro

A União Europeia confirmou que suspenderá as importações de carnes do Brasil a partir de quinta-feira, 3 de setembro de 2026. O bloco afirma que o país não conseguiu garantir o cumprimento das regras europeias sobre o uso de substâncias antimicrobianas.

O Brasil é o maior exportador global de carne bovina e de frango. Em 2025, as exportações brasileiras dessas duas proteínas para a União Europeia somaram cerca de US$ 1,8 bilhão, valor que dimensiona a importância do mercado europeu para frigoríficos, produtores e demais empresas da cadeia.

Investigação mira classificação do azeite

Em um pedido separado, a CNA solicitou ao Ministério da Agricultura uma investigação sobre os padrões de identidade, qualidade e classificação dos azeites de oliva importados e comercializados no Brasil. A entidade quer verificar possíveis diferenças entre a categoria informada no desembaraço aduaneiro e as características constatadas nos produtos vendidos no país.

O foco inclui itens apresentados como azeite extravirgem. Segundo a confederação, a entrada de produtos que não correspondam à classificação declarada pode dar vantagem indevida aos importadores e prejudicar a valorização da produção nacional. O pedido não menciona diretamente a União Europeia, mas o bloco respondeu por 89% das quase 90 mil toneladas de azeite importadas pelo Brasil em 2025.

Europa domina fornecimento de azeite ao Brasil

A maior parte do azeite europeu importado pelo Brasil em 2025 veio de Portugal, seguido por Espanha e Itália. No mesmo ano, as importações brasileiras do produto originárias da União Europeia movimentaram US$ 540 milhões, montante inferior ao das exportações brasileiras de carnes, mas relevante para o comércio entre as duas regiões.

A apuração pretendida pela CNA pode esclarecer se a rotulagem e a classificação dos produtos estão de acordo com a legislação brasileira. Caso sejam encontradas irregularidades, o resultado poderá levar a medidas de fiscalização ou a mudanças nas condições de comercialização do produto.

Próximos passos para governo e setor agropecuário

O governo brasileiro ainda precisa avaliar o pedido de acionamento do MRC e definir se adotará medidas comerciais contra o bloco europeu. Também caberá ao Ministério da Agricultura decidir sobre a investigação dos azeites e seus eventuais procedimentos de fiscalização.

Para quem trabalha ou investe na cadeia de carnes, o principal ponto de atenção é a duração do embargo e a capacidade de o setor reabilitar as exportações para a União Europeia. Para os consumidores, a investigação do azeite pode trazer informações sobre a qualidade dos produtos disponíveis, enquanto o impacto final dependerá das conclusões oficiais e das medidas adotadas pelos governos.

Impacto para a sociedade

O embargo pode reduzir as vendas externas da cadeia de carnes e pressionar a renda e o emprego em regiões ligadas à produção, caso a suspensão se prolongue. A investigação sobre o azeite pode afetar consumidores se forem encontradas diferenças entre a qualidade declarada e a entregue nas prateleiras.