O Ibovespa registrou a 11ª alta consecutiva nesta quarta-feira (2) e acumulou avanço de mais de 10 mil pontos em apenas três pregões, em um movimento que passou a ser guiado principalmente pela mudança na leitura das pesquisas eleitorais. O índice saiu de 175.664,62 pontos na sexta-feira (28) para a máxima intradiária de 186.028,06 pontos nesta sessão. Às 14h02, subia 2,87%, aos 184.886,36 pontos, com alta acumulada de 5,17% na semana.

Pesquisas apertadas mudaram a leitura do mercado

A principal simulação de segundo turno da pesquisa Quaest mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 42% das intenções de voto, contra 41% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na rodada anterior, Lula tinha 43% e Flávio, 40%. O levantamento também apontou Lula com 37% no primeiro turno, Flávio com 29% e Augusto Cury (Avante) com 10%.

Para os investidores, a aproximação entre os candidatos reduziu a percepção de que a eleição já teria um resultado praticamente definido. A avaliação predominante passou de uma probabilidade estimada de 70% de vitória de Lula e 30% de Flávio para um cenário de empate técnico no segundo turno.

Por que a disputa eleitoral afeta as ações

O mecanismo por trás do chamado trade eleitoral é a tentativa de antecipar quais políticas econômicas podem prevalecer no próximo governo. Parte dos investidores interpreta uma eventual alternância de poder como possibilidade de adoção de um ajuste fiscal mais confiável, isto é, medidas capazes de controlar o crescimento das despesas e melhorar a trajetória das contas públicas.

Essa expectativa pode elevar o interesse por ações brasileiras porque reduz, ao menos no curto prazo, o prêmio exigido para investir no país. Com menor percepção de risco, investidores podem aceitar pagar mais por empresas locais, especialmente aquelas diretamente associadas ao governo, como Banco do Brasil e Petrobras.

Estrangeiros também ajudaram a impulsionar a bolsa

Antes de a eleição assumir o protagonismo, a recuperação do fluxo estrangeiro já vinha contribuindo para as altas. O Ibovespa acumulou dez pregões positivos em agosto, embora o mês tenha registrado saída líquida de aproximadamente R$ 18,6 bilhões por parte de investidores estrangeiros.

A participação dos estrangeiros no volume negociado caiu para 57% em agosto, o menor nível do ano e mais de 60% abaixo do registrado no início de 2026. Segundo gestores, a interrupção da venda intensa observada na primeira metade de agosto já foi suficiente para melhorar o fluxo e dar sustentação ao índice.

Banco do Brasil e Petrobras ficaram no radar

O Banco do Brasil se destacou entre as empresas beneficiadas pela mudança na percepção eleitoral. Como a instituição é controlada pelo governo, suas ações tendem a reagir com mais intensidade às expectativas sobre o futuro da administração federal e sobre a condução da política econômica.

A alta da Petrobras, por outro lado, não pode ser atribuída integralmente às pesquisas. O petróleo Brent registrou forte valorização nos últimos pregões, o que melhora diretamente as perspectivas de receita e resultado da companhia. Assim, fatores externos e eleitorais atuaram simultaneamente sobre os papéis.

O que pode interromper a sequência de altas

A disparada recente não elimina os riscos. Pesquisas eleitorais podem mudar, e uma eventual frustração com propostas fiscais ou com a capacidade de execução de qualquer candidato pode devolver volatilidade à bolsa. O mercado também pode revisar rapidamente suas posições caso o fluxo estrangeiro volte a ser negativo.

Para quem acompanha o mercado, o ponto central é que o Ibovespa passou a incorporar um cenário eleitoral mais competitivo, mas isso não representa uma confirmação do resultado das urnas nem garante a manutenção das altas. O próximo movimento dependerá da divulgação de novos levantamentos, da reação dos investidores estrangeiros e da clareza das propostas para as contas públicas.