As ações do Banco do Brasil (BBAS3) chegaram a subir mais de 7% nesta quarta-feira (2), em um movimento atribuído às pesquisas eleitorais e à entrada de investidores estrangeiros na Bolsa. Por volta das 13h03, os papéis avançavam 6,80%, enquanto outros bancos também tinham ganhos, mas em menor intensidade. O movimento reforça a leitura de que o mercado começou a embutir nos preços uma possível mudança de governo.
Fluxo estrangeiro ampliou a alta de BBAS3
O avanço do Banco do Brasil se destacou dentro do setor financeiro e foi descrito por participantes do mercado como um trade eleitoral — operação de curto prazo baseada na expectativa sobre o resultado da eleição, e não necessariamente na melhora imediata dos fundamentos da empresa.
Gabriel Magno, chefe de alocação e sócio da AW Capital, afirmou que a alta estaria relacionada à possibilidade de troca de governo e chamou atenção para a atuação de corretoras estrangeiras na ponta compradora. Em termos práticos, esse fluxo ajudou a acelerar a valorização, à medida que mais investidores passaram a disputar os mesmos papéis.
Por que a eleição influencia o Banco do Brasil
A interpretação predominante é que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia levar à troca da diretoria do banco. Parte dos investidores também passou a trabalhar com uma expectativa maior de privatização, o que, na visão desses agentes, poderia resultar em uma gestão mais orientada a resultados.
Até agora, porém, não houve declaração pública de que o candidato do PL pretenda privatizar a instituição. Um de seus principais colaboradores disse no mês passado que a orientação em relação às privatizações seria semelhante à do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, mas com menor intensidade. A avaliação apresentada foi de que empresas deficitárias ou falidas poderiam ser privatizadas pontualmente, enquanto uma operação de grande porte seria pouco provável.
Alta ocorre apesar de pressão nos fundamentos
O salto das ações não veio acompanhado de uma melhora clara nos indicadores operacionais. No segundo trimestre, o Banco do Brasil registrou lucro de R$ 3,9 bilhões, alta de 3,3% em relação ao mesmo período anterior. Apesar do crescimento, houve deterioração na qualidade dos ativos, com aumento dos calotes entre pessoas físicas e produtores rurais.
Um gestor ouvido durante o pregão classificou o movimento como um trade eleitoral “na veia”, justamente porque os números recentes do banco não justificariam, isoladamente, uma valorização tão expressiva. A tese depende, portanto, de uma possível mudança futura na administração e na estratégia da estatal.
O que a avaliação da XP indica sobre o preço
A XP manteve recomendação neutra para BBAS3 e atualizou o preço-alvo para R$ 21. Esse valor ficou 1,2% abaixo do fechamento anterior, de R$ 21,26, indicando que a instituição não via espaço evidente para uma alta adicional com base apenas nas projeções financeiras.
O cenário para o banco tem fatores positivos e negativos. A MP 1.376 funcionou como uma medida de alívio para produtores rurais endividados e pode ajudar a reduzir o custo de risco nos próximos trimestres. Por outro lado, a piora da carteira de pessoas físicas, especialmente em cartões e crédito consignado, pode limitar essa recuperação.
Implicações para quem acompanha a ação
O movimento mostra como expectativas políticas podem provocar oscilações fortes em ações de empresas estatais antes mesmo de qualquer mudança concreta na gestão. A alta de BBAS3, portanto, reflete principalmente a reprecificação de um cenário eleitoral e o fluxo comprador estrangeiro, não uma transformação já realizada nos resultados do banco.
Também há pressão sobre os dividendos: o payout, parcela do lucro distribuída aos acionistas, está em 30% e deve continuar contido. Os índices de capital mais baixos e a redução do patrimônio tangível mantêm a administração concentrada em preservar flexibilidade financeira. Os próximos movimentos dependerão das novas pesquisas, do fluxo internacional e da evolução dos calotes no crédito.
