O dólar entra em setembro perto de R$ 5,14, mas deve enfrentar um ambiente mais volátil nas próximas semanas, à medida que decisões do Fed e do Copom, a aproximação das eleições e a perda de força de fatores que sustentaram o real em 2026 aumentam a pressão sobre o câmbio. As projeções para o mês variam de uma volta à região de R$ 5,00 a uma alta para R$ 5,40 ou R$ 5,50.

Fed e Copom podem reduzir o suporte dos juros ao real

As autoridades monetárias dos Estados Unidos e do Brasil se reúnem nos dias 15 e 16 de setembro. O mercado acompanha especialmente a possibilidade de o Federal Reserve adotar um tom mais duro enquanto o Banco Central brasileiro mantém o ciclo de cortes da Selic, a taxa básica de juros do país.

Esse movimento reduziria o diferencial de juros, que é a diferença entre as taxas brasileiras e americanas. Quando essa vantagem diminui, aplicações em reais tendem a ficar relativamente menos atrativas para investidores, reduzindo um dos fluxos que ajudam a sustentar a moeda brasileira. A expectativa no Brasil é de corte de 0,25 ponto percentual da Selic, diante de inflação e atividade mais fracas.

Inflação americana mantém o câmbio sob pressão

Nicolas Gomes, da Manchester Investimentos, destaca que o índice PCE, uma das principais medidas de inflação acompanhadas pelo Fed, acumula alta de 3,7% em 12 meses. Além disso, o tom mais rígido de Kevin Warsh elevou para mais de 50% a probabilidade de uma alta dos juros americanos em setembro.

Uma eventual elevação dos juros nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar globalmente, porque aumenta o retorno de ativos denominados na moeda americana. Para o Brasil, o efeito pode ser ampliado caso a Selic caia ao mesmo tempo: além de pressionar o câmbio, juros americanos mais altos encarecem o financiamento externo e podem reduzir o apetite por mercados emergentes.

Commodities e carry já ajudam menos o real

O real teve desempenho favorável em 2026 apoiado principalmente por termos de troca mais positivos e pelo chamado carry, o retorno obtido por manter recursos aplicados em uma moeda com juros elevados. A alta das commodities no primeiro semestre, associada ao conflito entre Estados Unidos e Irã, também melhorou a entrada de recursos no país.

Esse conjunto, porém, perdeu intensidade nos últimos meses. A normalização do cenário geopolítico diminuiu a contribuição dos preços de energia, enquanto o carry começou a devolver parte dos ganhos. O diferencial de juros ainda é elevado, mas já não parece suficiente para neutralizar sozinho as incertezas domésticas.

Eleições e fiscal ampliam a sensibilidade do dólar

A aproximação das eleições presidenciais coloca as discussões sobre política econômica e contas públicas no centro do radar. Sinais de maior risco fiscal podem aumentar a procura por proteção em dólar, especialmente porque parte do suporte externo à moeda brasileira está mais fraca.

O cenário geopolítico também pode provocar movimentos rápidos, principalmente se alterar os preços de energia e outras commodities. Por isso, mesmo uma trajetória de queda no dólar não deve ser linear: decisões de juros, pesquisas eleitorais, dados de inflação e notícias fiscais podem mudar as expectativas em poucos dias.

O que observar nas próximas semanas

Em uma combinação favorável ao real, com Fed menos duro, manutenção do interesse por ativos brasileiros e menor tensão doméstica, a moeda pode retornar para perto de R$ 5,00. No cenário adverso, com alta dos juros americanos, corte da Selic e piora das incertezas eleitorais ou fiscais, as estimativas chegam à faixa de R$ 5,40 a R$ 5,50.

Para quem investe, a principal consequência é a necessidade de considerar uma oscilação maior tanto no câmbio quanto em ativos sensíveis aos juros. Para consumidores e empresas, um dólar mais alto pode encarecer importados e pressionar custos, enquanto uma moeda mais forte ajuda a conter esses preços. O próximo marco será a reunião conjunta de Fed e Copom, nos dias 15 e 16, sem que o mercado tenha um único cenário definido para o mês.

Impacto para a sociedade

A oscilação do dólar pode afetar preços de produtos importados, combustíveis, viagens e componentes usados pela indústria, além de influenciar a inflação. As decisões do Fed e do Copom também mexem com o custo do crédito e com o rendimento de aplicações de renda fixa, ainda que os efeitos sobre o consumidor ocorram gradualmente.