Empresas varejistas e marcas conhecidas acumulam quase R$ 20 bilhões em dívidas em recuperações judiciais abertas em 2026, em um sinal da pressão combinada de juros altos, crédito restrito e mudança no padrão de consumo. O grupo inclui Casas Bahia, Tok&Stok, Mobly, Habib’s, Ragazzo e outras redes que enfrentam dificuldades para financiar estoques, manter lojas físicas e competir com plataformas digitais.
Casas Bahia concentra a maior parte das dívidas
A Casas Bahia voltou a recorrer à Justiça em 2026 com um passivo de R$ 17,3 bilhões, depois de ter realizado uma recuperação extrajudicial em 2024. O procedimento busca reorganizar os pagamentos e preservar a operação, mas impõe negociações com credores e pode exigir mudanças na estrutura do negócio.
O Grupo Toky, formado por Mobly e Tok&Stok, pediu recuperação judicial em maio, com dívidas de R$ 1,1 bilhão. Já o Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou no processo com passivo de R$ 265 milhões. A relação também inclui Lojas Marabraz, CVLB, dona de Casa&Video e Le Biscuit, e Americanas, que está em recuperação judicial desde 2023.
Como os juros altos comprimem o caixa das redes
O varejo depende de capital de giro, recurso usado para financiar estoques, despesas e vendas a prazo. Quando a Selic permanece elevada, os empréstimos ficam mais caros e o custo de carregar mercadorias aumenta. A empresa precisa vender mais ou operar com margens maiores apenas para manter o mesmo nível de caixa.
O efeito é ainda mais intenso nas companhias que oferecem crediário ou outros meios de financiamento ao consumidor. Na prática, elas captam recursos a um custo ligado ao CDI, referência das operações entre bancos, e emprestam aos clientes. Se a inadimplência cresce ao mesmo tempo em que o custo de captação aumenta, sobra menos dinheiro para pagar fornecedores, bancos e outras dívidas.
Consumo menor e concorrência digital ampliam a pressão
Juros altos reduzem a renda disponível das famílias e atingem principalmente as compras discricionárias, como móveis, roupas, eletrônicos e refeições fora de casa. A mudança não depende apenas de uma queda nominal nas vendas: o consumidor também pode trocar marcas, comprar itens mais baratos ou adiar a aquisição.
As plataformas digitais, especialmente as asiáticas, elevaram a competição em categorias como vestuário, eletrônicos e artigos para casa. O avanço dessas empresas acelerou uma transformação que já estava em curso, mas não explica sozinho a crise. Redes tradicionais continuam arcando com aluguéis, lojas, estoques distribuídos e custos logísticos que podem ser difíceis de sustentar quando a margem diminui.
Recuperações avançam entre empresas menores
O Brasil tinha 6.341 empresas em recuperação judicial em julho de 2026, conforme o Monitor RGF-BIZDOC. No primeiro semestre, 370 companhias entraram em recuperação, alta de 6,2% em relação às 348 do mesmo período de 2025. O estoque anterior era de 5.971 empresas.
Para Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF e especialista em reestruturação, o estresse financeiro está alcançando empresas de diferentes portes. O varejo aparece entre os setores mais pressionados, com impacto adicional em regiões afetadas pela retração do agronegócio e pela perda de renda.
O que o quadro indica para consumidores e investidores
A recuperação judicial não significa encerramento imediato das atividades, mas indica que a empresa perdeu capacidade de pagar suas obrigações nas condições originais. O processo pode preservar lojas e empregos, embora também envolva renegociação de dívidas, redução de custos, venda de ativos ou revisão do modelo de negócios.
Para consumidores, o principal efeito pode aparecer em mudanças de lojas, prazos, políticas de crédito e oferta de produtos. Para quem acompanha empresas, o caso mostra que a exposição ao varejo não depende apenas de vendas: dívida, custo financeiro, estoques e capacidade de integrar canais físicos e digitais são decisivos para a sobrevivência. Os próximos passos serão definidos pelos planos de recuperação e pela capacidade de cada grupo de gerar caixa em um ambiente ainda adverso.
Impacto para a sociedade
A crise pode afetar empregos, fornecedores e consumidores, especialmente nas redes que dependem de crédito para vender. Juros elevados também reduzem a renda disponível das famílias e encarecem compras parceladas, enquanto eventuais fechamentos de lojas podem diminuir a oferta de serviços e produtos em algumas regiões.
