O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, afirmou nesta terça-feira, 1º de setembro, que as bets são um elemento central do endividamento das famílias e defendeu que o sistema financeiro amplie a análise sobre a saúde financeira de quem toma crédito. A declaração indica que a autoridade monetária pretende avaliar não apenas o acesso aos serviços financeiros, mas também se os consumidores conseguem assumir e pagar suas dívidas.

Bets passam a ser tratadas como parte do problema de crédito

“É indiscutível que bet é um problema, bet é um elemento central do endividamento das famílias”, disse Aquino durante o Zetta Summit, em Brasília. O diretor não anunciou uma medida específica contra as plataformas de apostas, mas colocou o tema no centro da discussão sobre a capacidade de pagamento dos consumidores.

O mecanismo de preocupação do BC é o efeito que o uso recorrente das apostas pode ter sobre a renda disponível. Quando parte do dinheiro destinado a despesas básicas ou ao pagamento de dívidas é direcionada às bets, o consumidor pode recorrer ao cartão ou a outras modalidades de crédito para cobrir o orçamento. Isso aumenta o risco de atraso e de acúmulo de dívidas.

Inclusão financeira precisa vir acompanhada de proteção

Na avaliação do diretor, os avanços na inclusão financeira — que ampliaram o acesso da população a contas, meios de pagamento e empréstimos — precisam ser complementados por uma agenda de saúde do crédito. A ideia é que o sistema considere a situação financeira do cliente, e não apenas sua possibilidade formal de contratar um produto.

Essa análise mais ampla pode envolver o peso das parcelas na renda, o conjunto de compromissos já assumidos e a capacidade de o consumidor continuar pagando as contas depois de contratar um novo empréstimo. Aquino afirmou que o BC trabalha em uma agenda de transparência e pretende discutir medidas relacionadas ao endividamento e às condições de acesso ao crédito.

BC mira cartão e crédito não consignado

O diretor destacou a necessidade de um olhar macroprudencial, expressão usada para descrever medidas voltadas a reduzir riscos para o sistema financeiro como um todo. O foco, segundo ele, deve estar principalmente nas linhas de custo mais elevado, como o cartão de crédito e o crédito não consignado.

No crédito não consignado, as parcelas não são descontadas automaticamente do salário ou do benefício do tomador. Já no cartão, o risco de aumento rápido da dívida cresce quando o consumidor paga apenas parte da fatura ou utiliza o crédito rotativo. Em ambos os casos, juros e encargos podem comprometer uma fatia crescente da renda.

Inadimplência e renda comprometida estão no radar

Aquino classificou a inadimplência como um ponto “extremamente importante” nas decisões do Banco Central. O atraso nos pagamentos afeta as famílias, que perdem acesso a novas operações, e também as instituições financeiras, que passam a enfrentar maior risco de não recuperar os recursos emprestados.

O comprometimento da renda também está no radar da autoridade monetária. O diretor afirmou que o assunto exige uma discussão mais aprofundada e deve integrar a agenda do BC nos próximos meses, em meio à preocupação com a deterioração da qualidade do crédito e o aumento do endividamento das famílias.

O que pode mudar para consumidores e investidores

Por enquanto, a fala representa uma sinalização de prioridade, não uma nova regra para bancos, cartões ou plataformas de apostas. O próximo passo será a discussão de medidas de transparência, endividamento e acesso ao crédito. Mudanças nessa área podem alterar a forma como as instituições avaliam clientes e oferecem empréstimos.

Para quem consome, trabalha ou investe, o ponto central é acompanhar a evolução da qualidade do crédito. Um aumento dos atrasos tende a levar bancos a serem mais seletivos e a cobrar mais pelo risco, enquanto uma redução do comprometimento da renda pode melhorar a capacidade de pagamento das famílias. A decisão financeira individual continua dependendo da renda, das dívidas e das condições oferecidas em cada contrato.