O investidor brasileiro voltou a colocar parte do caixa em ações, enquanto os estrangeiros diminuíram o ritmo de saída da Bolsa, aponta um relatório do Itaú BBA baseado em conversas com gestores de fundos. O movimento é relevante porque reduz uma das principais pressões recentes sobre o mercado, mas ainda ocorre de forma seletiva e sem uma corrida por ativos de maior risco.

Compras locais avançam com preferência por empresas mais previsíveis

A melhora do sentimento ocorre em um cenário de valuations mais baixos — isto é, preços considerados descontados em relação aos fundamentos das empresas —, inflação mais favorável e expectativa de continuidade da queda dos juros. Mesmo assim, os gestores consultados ainda demonstram cautela na escolha dos papéis.

As preferências estão concentradas em empresas domésticas de qualidade, utilities — companhias de energia, saneamento e outros serviços essenciais —, exportadoras e incorporadoras voltadas à baixa renda. Esses grupos combinam, em maior ou menor grau, demanda mais estável, geração de caixa ou proteção contra oscilações da economia brasileira.

Consumo e crédito continuam fora do foco dos fundos

Companhias de consumo, negócios mais dependentes do ciclo econômico e empresas muito expostas à expansão do crédito ainda não atraem o mesmo interesse. O receio é que juros elevados, inadimplência e eventual desaceleração da atividade reduzam o poder de compra e dificultem a recuperação dos resultados.

Essa seletividade também explica por que o retorno do investidor local não significa uma mudança completa de postura. Em vez de assumir riscos amplos, os gestores parecem priorizar companhias com fluxo de caixa previsível e características semelhantes às de títulos de renda fixa.

Saída estrangeira perde força após saldo chegar a R$ 17,9 bilhões

O fluxo estrangeiro, que vinha pressionando os preços das ações, também apresentou sinais de alívio. O saldo líquido acumulado no ano chegou a R$ 69 bilhões em meados de abril e depois recuou para R$ 17,9 bilhões, indicando redução da exposição líquida dos estrangeiros ao mercado brasileiro.

Mais recentemente, o ritmo de retirada diminuiu, e uma janela de cinco dias chegou brevemente a registrar fluxo positivo. Isso não confirma uma volta definitiva do capital internacional, mas reduz a intensidade de uma fonte de venda que vinha afetando o desempenho da Bolsa.

Ibovespa teve sinal de sobrevenda em agosto

O Itaú BBA também avalia que o posicionamento dos investidores segue relativamente leve. O indicador de sobrevenda do banco apontou o Ibovespa abaixo dos 171 mil pontos em meados de agosto, sinal de que o índice havia caído além do que os padrões históricos considerados pelo estudo sugeriam.

Nos oito períodos seguintes a episódios semelhantes, a alta média foi de 5%. O dado, porém, é uma referência histórica, não uma previsão para o índice. Por isso, o banco não recomenda concentrar a carteira em ações de alto beta, aquelas que costumam oscilar mais do que o mercado.

Juros, eleições e crédito estão entre os riscos

O banco espera um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, levando a taxa a 13,75% no fim de 2026. Juros menores tendem a reduzir a atratividade relativa da renda fixa e o custo de financiamento das empresas, o que pode favorecer ações; por outro lado, o efeito sobre crédito e consumo depende da inflação e da percepção de risco.

Entre as incertezas estão uma possível revisão para baixo das projeções de PIB de 2027, a evolução da inadimplência, os efeitos do El Niño sobre o agronegócio e a inflação e o calendário eleitoral. No exterior, os investidores acompanham o Federal Reserve, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o dólar e os fluxos para mercados emergentes.

Apesar desses riscos, o Itaú BBA mantém o Brasil com exposição acima da média dentro da América Latina. Para quem investe, o cenário combina menor pressão estrangeira, expectativa de juros mais baixos e preços depreciados, mas exige atenção à qualidade e ao perfil de cada empresa. Os próximos dados de inflação, atividade, crédito e as decisões dos bancos centrais devem definir se a retomada local ganhará força.

Impacto para a sociedade

A expectativa de continuidade da queda da Selic pode reduzir gradualmente o retorno de novas aplicações de renda fixa e baratear o crédito, embora os efeitos dependam dos bancos e das condições econômicas. A melhora da Bolsa também pode facilitar o financiamento de empresas, mas não altera de forma imediata o orçamento das famílias.