Gestores estão aumentando a exposição à renda fixa justamente porque avaliam que as condições econômicas do Brasil não devem melhorar no curto prazo. A leitura é que o mercado já incorporou um cenário muito negativo, com juros elevados por mais tempo e deterioração fiscal; por isso, qualquer sinal de ajuste pode provocar valorização relevante dos títulos, afirmou um grupo de gestores durante o Macro Day, do BTG Pactual, nesta segunda-feira (31).
Mercado não aposta em queda dos juros no futuro
Fabiano Rios, sócio-fundador da Absolute Investimentos, disse que o mercado está “pagando” para manter a posição de que nada vai melhorar no Brasil. Na prática, os preços dos ativos refletem pouca expectativa de redução dos juros, mesmo diante da avaliação de que a economia está perdendo força.
Essa precificação aparece na curva de juros, que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos. Quando os investidores exigem taxas elevadas para emprestar dinheiro ao governo por vários anos, os títulos prefixados e atrelados à inflação passam a oferecer retornos maiores. Se as expectativas mudarem e as taxas futuras caírem, os papéis já emitidos podem se valorizar.
Por que o cenário fiscal é central para os gestores
Os participantes do painel — Rios, Carlos Woelz, da Kapitalo, e Rodrigo Carvalho, da BTG Pactual Asset Management — convergiram na avaliação de que a deterioração das contas públicas sustenta juros muito altos. Segundo eles, os estímulos de crédito que ajudaram a economia a crescer nos últimos anos já perderam eficácia.
Carvalho vê chances razoáveis de um ajuste fiscal em 2027, independentemente do resultado eleitoral, com um eventual governo adotando reformas voltadas à redução de gastos. Woelz, porém, só enxerga uma mudança significativa com a troca de governo. Se Luiz Inácio Lula da Silva for reeleito, o gestor acredita que a fórmula atual — crédito, programas sociais e ausência de cortes expressivos — tende a continuar.
Onde está a oportunidade na renda fixa
Rios e Carvalho mantêm uma visão positiva para ativos brasileiros de renda fixa. Para Rios, o fato de o mercado não esperar juros menores cria uma assimetria favorável: um ajuste fiscal pequeno poderia derrubar as taxas de curto prazo e gerar uma reação mais intensa nos preços dos títulos.
Em 31 de agosto de 2026, um título prefixado do governo com vencimento em 2029 oferecia 14,13% ao ano. A taxa é próxima dos 14% da Selic vigente no momento, mas os gestores destacam que não se espera que a taxa básica permaneça nesse nível daqui a três anos. Títulos prefixados e indexados à inflação são mais sensíveis às mudanças na curva de juros e, por isso, podem oscilar mais quando as expectativas se alteram.
O risco de o ciclo atual continuar
A tese não elimina os riscos. Woelz afirmou que o ciclo baseado em expansão do crédito e programas sociais chegou ao limite e que o governo precisaria aceitar uma desaceleração da economia. Como não acredita que isso ocorra no cenário atual, prefere permanecer fora de determinadas posições.
O pano de fundo internacional também aumenta a incerteza. Rios afirmou que as premissas tradicionais sobre crescimento, inflação, juros e força do dólar deixaram de responder como o esperado. Na avaliação do gestor, o mundo mudou e os mercados demoraram a incorporar essa transformação.
O que observar antes dos próximos movimentos
Para quem investe, a possibilidade de valorização dos títulos depende de uma queda efetiva das taxas futuras, provocada por melhora fiscal, desaceleração econômica ou mudança nas expectativas políticas. A manutenção dos juros elevados, por outro lado, preserva os rendimentos contratados, mas mantém a pressão sobre crédito, consumo e atividade.
O próximo ponto de atenção será a evolução das contas públicas e as propostas do governo eleito em 2027. Até lá, a estratégia predominante entre os gestores apresentados no evento é aproveitar as taxas atuais da renda fixa sem presumir que o cenário econômico brasileiro vá melhorar rapidamente.
Impacto para a sociedade
A percepção de que os juros permanecerão altos encarece o crédito para famílias e empresas, o que pode reduzir consumo, investimentos e contratações. Ao mesmo tempo, a política fiscal e a trajetória da inflação influenciam o custo de financiamento do governo e os retornos oferecidos aos investidores em títulos públicos e privados.
