Milhões de argentinos estão com dívidas em atraso e afirmam que já não conseguem refinanciar os débitos porque as parcelas e os juros se tornaram impagáveis. Mais de 20 milhões de pessoas estão endividadas e cerca de 6 milhões estão inadimplentes, em um país com pouco mais de 46 milhões de habitantes. O quadro expõe o impacto da perda de renda e do encarecimento do crédito sobre as famílias durante o governo de Javier Milei.

Seis milhões de argentinos já estão inadimplentes

Os dados do Banco Central argentino e de consultorias locais apontam que aproximadamente um em cada três habitantes enfrenta dificuldades para quitar compromissos assumidos com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos e até agiotas. A consultoria Analytica considera, nesse grupo, pessoas que têm problemas para liquidar as dívidas, enquanto os cerca de 6 milhões representam os casos de pagamentos atrasados ou não realizados.

O endividamento também alcança famílias que ainda tentam manter os pagamentos em dia usando novas linhas de crédito. Esse mecanismo apenas transfere o saldo de uma dívida para outra e aumenta o custo total quando os juros são elevados. Por isso, parte dos devedores afirma que deixou de buscar renegociação: as condições oferecidas não reduzem o valor a um nível compatível com a renda.

Protesto pede mecanismos para renegociar débitos

Em 20 de agosto, Buenos Aires recebeu a primeira marcha de cidadãos endividados. Os manifestantes pediram instrumentos para refinanciar os compromissos e criticaram a decisão do governo de não intervir diretamente na crise. Para a administração Milei, o problema é uma questão entre entes privados, envolvendo devedores e instituições financeiras.

O presidente atribuiu o aumento do endividamento ao período de forte consumo de televisores para a Copa do Mundo e questionou se alguém teria colocado “uma pistola na cabeça” dos consumidores para que tomassem crédito. A declaração provocou críticas de pessoas que afirmam ter recorrido a empréstimos para cobrir despesas essenciais, perdas de renda e emergências familiares.

Famílias recorrem a novos empréstimos para pagar os antigos

Eliana Yaynes, que apoia a eleição de Milei em 2023, diz considerar injusto tratar o endividamento como uma escolha por capricho. Ela e o marido pagam quatro empréstimos e calculavam dever cerca de 10 milhões de pesos antes de contratar o quarto crédito, valor indicado como equivalente a US$ 6.620, ou aproximadamente R$ 34,1 mil.

Iván Venencio e a mulher acumulam dívidas em cartões bancários e com familiares. Ele relata débitos de 10 milhões de pesos em cada um de seus dois cartões. Nos cartões da esposa, os saldos são de 8 milhões e 9 milhões de pesos. Somados apenas esses compromissos, o casal chega a 37 milhões de pesos, sem considerar outras obrigações.

Perdas de renda agravaram a situação

O descontrole financeiro começou para Venencio em fevereiro de 2025, após uma viagem ao Brasil ser interrompida pela morte do sogro. A família precisou comprar passagens de retorno, e a despesa foi lançada no cartão. No mês seguinte, a mulher perdeu uma gravidez e entrou em licença psiquiátrica após também sofrer a perda do pai.

Em agosto de 2025, o carro usado por Venencio como motorista de aplicativo pegou fogo. O seguro cobriu apenas metade dos gastos, obrigando-o a tomar mais crédito para consertar o veículo. Ao mesmo tempo, a renda do aplicativo caiu: ele afirma que ganhava cerca de 1,8 milhão de pesos por mês trabalhando meio período em 2021, mas passou a faturar menos de 1 milhão, enquanto aluguel, eletricidade e gás continuaram subindo.

O que o endividamento sinaliza para a economia argentina

A crise mostra como a combinação de renda pressionada, despesas crescentes e crédito caro pode transformar um empréstimo emergencial em uma dívida permanente. Quando a família precisa contratar novo crédito para pagar o anterior, uma parcela cada vez maior da renda deixa de financiar consumo e serviços básicos.

O próximo passo dependerá da capacidade de bancos, carteiras digitais e governo de oferecer soluções que reduzam efetivamente o peso dos débitos. Sem isso, a inadimplência tende a limitar o consumo das famílias e a aprofundar a distância entre a recuperação dos indicadores macroeconômicos e a situação financeira vivida no cotidiano.