Analistas passaram a considerar a possibilidade de retração do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre, à medida que o efeito dos juros elevados se espalha pela economia. A avaliação ocorre após sinais de enfraquecimento no fim do segundo trimestre e com a retirada gradual dos estímulos fiscais e de crédito que ajudaram a impulsionar o início do ano.

Indicadores de julho já mostram perda de força

O principal alerta veio em junho, quando o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia mensal do PIB, recuou 0,64% em relação a maio. O resultado ficou abaixo do esperado e foi acompanhado por quedas nos componentes ligados à indústria, aos serviços e aos impostos, excluindo o setor agropecuário.

Os primeiros dados do terceiro trimestre apontam continuidade da desaceleração. Em julho, as vendas do comércio caíram 0,1% ante junho, em série ajustada para eliminar efeitos sazonais, conforme o Iget. O indicador de atividade do Itaú também recuou 0,5% na mesma comparação. O fluxo de veículos em rodovias pedagiadas ficou estável, enquanto a confiança de consumidores e empresas diminuiu e continuou abaixo de 100 pontos, nível que separa avaliações positivas e negativas.

Como a Selic elevada chega à atividade

A Selic em nível elevado torna mais caro tomar crédito para comprar bens, financiar imóveis ou ampliar negócios. Para as empresas, o custo maior do dinheiro pode adiar investimentos e reduzir estoques e produção. Para as famílias, parcelas mais altas e maior comprometimento da renda tendem a limitar o consumo.

Esse efeito não aparece imediatamente porque contratos de crédito, decisões de investimento e planos de consumo levam tempo para ser ajustados. Economistas avaliam que o aperto monetário acumulado agora começa a atingir a atividade com mais intensidade, justamente quando medidas fiscais e de crédito perdem força.

Desaceleração deixou de estar concentrada em poucos setores

O Bank of America identificou perda de ritmo em diferentes áreas da economia. Entre dez indicadores mensais disponíveis para julho, três ficaram negativos e quatro apresentaram variação praticamente nula. Em junho, seis haviam recuado.

Para os economistas do banco, o sinal mais relevante não é a fraqueza de um dado isolado, mas a repetição do movimento em vários indicadores. A estimativa da instituição é que o crescimento do PIB tenha desacelerado de 1,1% no primeiro trimestre para 0,3% no segundo, com perda adicional de velocidade entre julho e setembro.

Segundo trimestre já deve mostrar uma economia mais fraca

Na avaliação de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a perda de dinamismo já era esperada devido ao nível contracionista da Selic e ao tempo prolongado de manutenção dos juros. O segundo trimestre, segundo ele, deve registrar desaceleração evidente, abrindo espaço para uma possível queda do PIB no terceiro.

Os números conhecidos até agora ainda são preliminares e não confirmam uma retração trimestral. Mas a combinação de comércio mais fraco, confiança em baixa e menor atividade em setores relevantes reduz a probabilidade de uma recuperação rápida no segundo semestre.

O que observar nos próximos meses

Para quem investe, consome ou trabalha, o próximo passo será acompanhar os dados de atividade de agosto e setembro e as decisões do Banco Central sobre os juros. Uma economia mais fraca pode aliviar a pressão sobre a inflação no futuro, mas, no curto prazo, tende a dificultar a expansão do crédito, das vendas e dos investimentos.

O cenário também influencia os ativos financeiros: a expectativa de atividade menor pode alterar projeções para os lucros das empresas e para a trajetória dos juros, afetando ações e aplicações de renda fixa. Ainda assim, a possibilidade de queda do PIB no terceiro trimestre é uma avaliação de analistas, não um resultado já confirmado pelas estatísticas oficiais.

Impacto para a sociedade

A perda de força da economia pode reduzir o ritmo de contratação, consumo e investimentos, embora os dados disponíveis ainda não indiquem uma recessão consolidada. Juros elevados também encarecem empréstimos e financiamentos para famílias e empresas, pressionando decisões do dia a dia e a atividade econômica.