A Porto Asset identificou as empresas high yield, que oferecem retornos mais altos por apresentarem maior risco de crédito, como as mais vulneráveis ao prolongamento dos juros elevados. Em alguns casos, o custo da dívida já supera a geração de caixa, cenário que reforça a necessidade de seletividade entre investidores de crédito privado mesmo diante da expectativa de novos cortes da Selic.
Por que as empresas high yield estão mais expostas
De acordo com Izak Benaderet, diretor executivo da Porto Asset, companhias financeiramente menos robustas sofrem mais quando as taxas permanecem elevadas por muito tempo. A despesa financeira cresce, enquanto a receita e a geração de caixa podem perder força com a desaceleração da economia.
Quando os juros pagos sobre a dívida ultrapassam o caixa produzido pela operação, a empresa precisa recorrer a novas captações, reduzir investimentos ou usar recursos acumulados para cumprir compromissos. Isso aumenta o risco de dificuldades para honrar obrigações, especialmente entre emissores que já possuem endividamento elevado.
O que a Porto Asset espera para a Selic
O cenário-base da gestora considera mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic. A instituição também avalia que aumentou a possibilidade de novas reduções nas duas últimas reuniões do Banco Central em 2026.
A expectativa de flexibilização monetária é sustentada pela deterioração das condições de crédito para empresas e famílias e por sinais de perda adicional de força da atividade econômica. A Porto Asset projeta ainda que o PIB tenha desempenho consideravelmente mais fraco em 2027 do que em 2026.
A queda da Selic tende a reduzir gradualmente o custo de novas dívidas e a aliviar o serviço financeiro das empresas. O efeito, porém, não é instantâneo: contratos antigos podem continuar caros, e companhias mais arriscadas ainda podem enfrentar dificuldade para refinanciar seus passivos.
Como avaliar o risco no crédito privado
Para Benaderet, o investidor não deve observar apenas a remuneração oferecida por um título. É necessário analisar a capacidade de pagamento do emissor, seu nível de endividamento, a geração de caixa e a liquidez do papel, ou seja, a facilidade de vendê-lo no mercado.
Uma taxa maior pode funcionar como compensação por um risco maior de inadimplência. Por isso, dois títulos com retornos parecidos podem apresentar riscos bastante diferentes, dependendo da situação financeira das empresas que os emitiram e do prazo de vencimento de cada operação.
Volatilidade pode criar diferenças de preço
O ambiente de incerteza também pode provocar distorções de preço entre títulos com perfis de risco semelhantes. Na prática, um papel pode passar a oferecer uma remuneração adicional, chamada de spread, maior do que a de outro ativo comparável em relação aos títulos públicos de referência.
Essas diferenças permitem que gestores substituam ativos ou ajustem suas carteiras, buscando melhor relação entre risco e retorno. A Porto Asset afirma acompanhar esse movimento em reuniões semanais de alocação e no dia a dia das operações, sem abandonar a análise da qualidade de crédito.
O que vem a seguir para quem investe e para a economia
Antes de incluir um ativo nos portfólios, a gestora realiza análises qualitativas e quantitativas, atribui uma classificação interna de risco e exige aprovação por consenso do Comitê de Crédito e ASG. Os créditos são revisados formalmente ao menos uma vez por ano, com acompanhamento mais frequente de ofertas, limites e mudanças na situação dos emissores.
Em fundos de previdência, o horizonte mais longo pode permitir uma parcela menor em caixa e uma exposição maior a créditos corporativos e FIDCs, fundos que investem em recebíveis, do que em produtos com liquidez diária. Ainda assim, prazo, liquidez e capacidade de pagamento continuam sendo pontos centrais.
Para o investidor, o próximo passo é acompanhar tanto a trajetória da Selic quanto a saúde financeira de cada emissor, sem tratar a taxa prometida como único critério. Para empresas e consumidores, eventuais cortes podem aliviar o crédito ao longo do tempo, mas a desaceleração prevista para a atividade mantém o risco de pressão sobre caixa, emprego e decisões de investimento.
Impacto para a sociedade
A pressão sobre empresas endividadas pode encarecer empréstimos, reduzir investimentos e afetar preços e empregos se a dificuldade de pagamento se espalhar. A perspectiva de novos cortes da Selic, por outro lado, tende a aliviar gradualmente o custo do crédito para famílias e companhias, embora esse efeito não seja imediato.
