O ouro encerrou a sessão desta sexta-feira (28) com queda de 2,88% na Comex, a divisão de metais da Bolsa de Nova York, após Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve (Fed), sinalizar uma atuação mais firme contra a inflação durante o simpósio de Jackson Hole. O movimento levou o metal a US$ 4.529,90 por onça-troy nos contratos para dezembro e marcou a principal reação dos mercados ao discurso.

Por que o discurso de Warsh pressionou o ouro

Warsh afirmou que a prática de orientação futura, conhecida no mercado pelo termo em inglês “forward guidance”, se prolongou além do necessário. Essa ferramenta consiste em indicar antecipadamente como o banco central pretende conduzir os juros, ajudando empresas, consumidores e investidores a formar expectativas sobre o custo do dinheiro.

Na avaliação do dirigente, a orientação foi útil durante os desafios provocados pela crise financeira de 2008, mas atualmente pode prejudicar os objetivos do Fed. A leitura predominante foi de que o banco central americano está disposto a manter uma postura mais rigorosa para impedir que a inflação permaneça elevada, mesmo que isso aumente a pressão sobre a atividade econômica.

Juros dos Treasuries e dólar ampliaram a queda

A reação foi mais intensa porque os investidores elevaram os rendimentos dos Tre?asuries, os títulos do governo dos Estados Unidos, e o dólar. Quando os juros dos títulos americanos sobem, aplicações de renda fixa em dólar passam a oferecer retorno mais atrativo e reduzem o interesse relativo por ativos que não pagam juros, como o ouro.

O fortalecimento da moeda americana também costuma pesar sobre a cotação do metal. Como o ouro é negociado em dólar no mercado internacional, uma alta da moeda torna o produto mais caro para compradores que utilizam outras divisas, o que pode reduzir a demanda e pressionar os preços.

O desempenho do ouro e da prata na semana

Além da queda diária, o ouro acumulou perda de 3,22% na semana. A baixa ocorreu apesar de sinais de demanda física relevante na China, um dos principais mercados consumidores do metal.

A prata para dezembro acompanhou o movimento e recuou 3,49% na sessão, para US$ 67,786. O desempenho reforça que a alta dos juros americanos e do dólar afetou o conjunto dos metais preciosos, e não apenas o ouro.

Demanda chinesa continua como fator de sustentação

Dados do Departamento de Censo e Estatística de Hong Kong mostraram que as exportações líquidas de ouro para a China somaram 56,2 toneladas em julho, alta de 11% em relação a junho. O dado indica crescimento mensal dos embarques para o país.

Também houve aumento expressivo nas remessas da Suíça. Embora as exportações suíças para a China tenham caído em julho para pouco menos de 22 toneladas, o volume foi mais que o dobro do registrado um ano antes. No acumulado desde janeiro, os embarques chegaram a 204 toneladas, cerca de 150% acima do período anterior.

O que observar depois da reação do mercado

A queda desta sexta-feira mostra como o ouro pode ser afetado rapidamente por mudanças nas expectativas para os juros dos Estados Unidos. O metal é frequentemente usado como proteção contra inflação e incertezas, mas perde parte de seu apelo quando o retorno dos títulos americanos aumenta e o dólar se fortalece.

Para quem acompanha commodities ou possui exposição ao ouro, os próximos movimentos dependerão do equilíbrio entre a política monetária do Fed e a demanda física, especialmente na China. O discurso de Warsh elevou a sensibilidade do mercado a novas declarações sobre inflação, juros e a duração da atual orientação do banco central.