A inadimplência no segmento de recursos livres chegou a 6,4% em julho, ante 6,0% em junho, e atingiu o maior nível da série histórica iniciada em março de 2011, informou o Banco Central nesta sexta-feira (28). O dado mostra que uma parcela crescente de famílias e empresas deixou de pagar operações cujas condições são negociadas diretamente com os bancos, em um momento de recuo nas concessões de crédito.
Inadimplência também bate recorde no crédito total
Considerando toda a carteira do Sistema Financeiro Nacional, a inadimplência subiu para 4,9% em julho, contra 4,6% no mês anterior. O avanço foi de 0,3 ponto percentual em um mês e levou o indicador acima do recorde anterior, de 4,7%, registrado em maio. Em 12 meses, a alta acumulada foi de 0,9 ponto percentual.
O aumento foi mais intenso entre as pessoas físicas. A inadimplência desse grupo alcançou 5,81% em julho, também o maior patamar da série histórica. Entre as empresas, a taxa ficou em 3,31%. O endividamento das famílias, por sua vez, permaneceu em 49,8% em junho, estável em relação a maio.
Crédito cresce no estoque, mas novas concessões recuam
O estoque total de crédito, que representa o volume acumulado de empréstimos e financiamentos em aberto, avançou 0,3% em julho, para R$ 7,372 trilhões. O número indica que o saldo das operações continuou aumentando, mesmo com a piora nos pagamentos.
As novas concessões, porém, recuaram 1,6% na comparação com junho. No crédito livre, a queda foi de 1,9%, enquanto as operações com recursos direcionados, submetidas a parâmetros definidos pelo governo, cresceram 1,0%. A combinação sugere um mercado com menos contratação nova e maior volume de operações problemáticas na carteira existente.
Juros e spread diminuem, mas seguem pesando
A taxa média cobrada pelos bancos no crédito livre caiu para 47,7% ao ano em julho, uma redução de 2,0 pontos percentuais em relação a junho. Nos recursos direcionados, o juro recuou 0,1 ponto percentual, para 12,1% ao ano.
Também houve queda no spread bancário, diferença entre o custo de captação das instituições e a taxa final paga pelo cliente. No crédito livre, o spread passou de 35,7 pontos percentuais em junho para 33,8 pontos em julho. Mesmo com a redução, taxas elevadas tornam mais caro carregar dívidas e podem dificultar a regularização de parcelas atrasadas.
Como a inadimplência afeta famílias e empresas
Quando os atrasos aumentam, os bancos precisam reconhecer perdas maiores e tendem a reforçar os critérios para aprovar empréstimos. Isso pode reduzir o acesso ao crédito, elevar as exigências de garantias e limitar o consumo de famílias que dependem de financiamento.
Para as empresas, a restrição pode dificultar o capital de giro e o financiamento de investimentos. Em um ambiente de concessões menores, negócios mais dependentes de crédito podem adiar decisões, enquanto consumidores podem reduzir compras parceladas para evitar o aumento do comprometimento da renda.
O que observar nos próximos meses
Os próximos dados do Banco Central deverão mostrar se o recorde de julho representa uma piora pontual ou a continuidade de uma tendência. Será importante acompanhar simultaneamente a inadimplência, as concessões e o custo médio dos empréstimos, porque uma queda dos juros não garante, por si só, melhora imediata na capacidade de pagamento.
Para quem investe, o avanço dos atrasos é um sinal de atenção sobre a qualidade das carteiras de crédito e o risco de perdas para as instituições financeiras. Para quem consome ou trabalha, o principal efeito prático é a possibilidade de crédito mais seletivo, mesmo com taxas médias menores. A evolução desses indicadores também ajuda a medir a força do consumo e da atividade econômica nos meses seguintes.
Impacto para a sociedade
O avanço da inadimplência pode dificultar novos empréstimos e elevar a cautela dos bancos na concessão de crédito, afetando famílias e empresas. Para quem já tem dívidas, o atraso tende a limitar o acesso a financiamentos e aumentar a necessidade de renegociação, enquanto a redução das concessões pode pesar sobre o consumo e a atividade econômica.
