O Morgan Stanley apontou que a ausência de um ajuste fiscal crível em 2027 poderia levar o dólar à vista a se aproximar de R$ 6 e fazer o Ibovespa recuar para 130 mil pontos. O cenário mais negativo prevê ainda juros longos de 18%, em um ciclo de aumento do risco percebido sobre o Brasil, enfraquecimento do real, atividade mais fraca e piora da trajetória da dívida pública.

Como o risco fiscal pressionaria dólar, juros e bolsa

O mecanismo começa pela percepção de que as contas públicas não caminham para uma estabilização. Com maior preocupação sobre a dívida, investidores passam a exigir uma remuneração adicional para financiar o governo e manter recursos aplicados no país. Esse prêmio de risco mais alto tende a elevar os juros futuros e a pressionar o câmbio, porque reduz a atratividade dos ativos brasileiros e aumenta a procura por proteção em moeda estrangeira.

O enfraquecimento do real também pode alimentar a inflação por encarecer produtos importados, insumos e equipamentos. Nesse ambiente, o Banco Central teria menos espaço para cortar a Selic, enquanto o custo do crédito permaneceria elevado. Juros mais altos reduzem o consumo e o investimento, desaceleram a economia e tornam mais difícil melhorar a própria relação entre dívida e atividade.

O que significam as projeções para 2027

No cenário de estresse, o dólar chegaria a R$ 6, ante R$ 5,25 na projeção oficial do banco para o fim de 2027. A diferença representa uma alta de aproximadamente 14% em relação ao cenário-base. Já a taxa de DI de longo prazo, referência para os juros esperados no futuro, alcançaria 18%, três pontos percentuais acima dos 15% previstos no cenário oficial.

O Ibovespa cairia para 130 mil pontos, contra 215 mil pontos na projeção-base. De acordo com o banco, isso equivaleria a uma queda de 35% do índice medido em dólar e de cerca de 25% em reais. A desvalorização, porém, seria parcialmente amortecida por exportadoras, que recebem receitas em moeda forte, e por bancos, que podem se beneficiar de juros elevados.

Eleição de 2026 aparece como catalisador decisivo

O Morgan Stanley considera a eleição de outubro um fator capaz de acelerar a precificação desses riscos. A disputa é descrita como acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, com probabilidade crescente de segundo turno.

Na avaliação do banco, Lula representa uma continuidade ampla do atual arcabouço fiscal e um papel mais ativo do Estado. Flávio, por sua vez, defende regras fiscais mais rígidas, redução da estrutura administrativa, privatizações e maior abertura comercial. A execução de qualquer programa, contudo, dependeria também da composição do Congresso e dos governos estaduais.

Por que o cenário fiscal brasileiro preocupa

O país chegaria a 2027 com dívida crescente, mais de 91% das despesas obrigatórias e pouco espaço para novos ajustes baseados apenas no aumento de receitas. O banco também cita uma regra de gastos enfraquecida por exceções e um resultado primário distante do nível necessário para estabilizar a dívida.

Quando despesas obrigatórias ocupam parcela elevada do orçamento, o governo tem menos liberdade para cortar gastos em uma desaceleração ou direcionar recursos para investimentos. A combinação de resultado primário insuficiente e dívida em alta pode manter a pressão sobre os juros, mesmo que a inflação corrente recue.

O que vem a seguir para investidores e para a economia

O cenário oficial do Morgan Stanley é menos negativo: dólar a R$ 5,25, Ibovespa em 215 mil pontos e DI longo a 15% no fim de 2027, em uma hipótese de continuidade das políticas atuais. Nesse quadro, o banco destaca empresas com receitas em moeda forte, instituições financeiras e companhias defensivas de telecomunicações, sem que isso constitua recomendação de investimento.

Para o mercado, os próximos sinais serão a definição das candidaturas, a composição do Congresso e a capacidade do próximo governo de apresentar medidas fiscais consideradas consistentes. Para a economia real, a credibilidade desse plano influenciará o custo do crédito, o câmbio, os preços e o ritmo de atividade; sem ela, o ajuste pode ocorrer por juros mais altos e menor crescimento.

Impacto para a sociedade

A deterioração fiscal pode afetar o brasileiro comum por meio de juros mais altos, crédito mais caro e pressão sobre os preços de produtos importados. Se o real perder valor e o Banco Central tiver menos espaço para reduzir os juros, empresas, consumidores e o próprio governo podem enfrentar custos maiores, com efeitos sobre atividade e emprego.