Favorita nas pesquisas para a eleição presidencial francesa de 2027, Marine Le Pen tentou reduzir a desconfiança de empresários em relação à sua agenda econômica ao defender cortes drásticos de gastos e o controle da dívida pública. A sinalização foi dada no primeiro debate presidencial organizado pela principal associação empresarial do país e ocorre enquanto investidores acompanham o risco de uma nova deterioração das contas públicas da França.

Le Pen tenta afastar temor sobre sua política econômica

Questionada sobre como colocaria as finanças francesas em ordem, Le Pen afirmou que o governo precisa reduzir fortemente suas despesas. Ela também disse que pretende pagar a dívida pública, em contraste com Jean-Luc Mélenchon, candidato da extrema-esquerda, que afirmou que colocaria parte desse passivo “no fogo”.

A defesa de disciplina fiscal representa uma tentativa de responder às dúvidas de executivos sobre a capacidade da líder da extrema direita de administrar a economia. Le Pen se opõe à imigração e mantém uma posição crítica em relação à integração europeia, fatores que ampliam a cautela de empresários e investidores diante de seu possível governo.

A candidata informou que os detalhes de seu programa econômico serão divulgados nas próximas semanas. Até lá, a promessa de cortar despesas funciona como uma sinalização política, mas ainda não esclarece quais áreas do orçamento seriam atingidas nem como o ajuste seria implementado.

França chega à eleição com déficit e dívida elevados

Desde o início da pandemia, sucessivos governos franceses enfrentam dificuldades para controlar as contas públicas. A dívida está em 117% do Produto Interno Bruto (PIB), um nível recorde, e o país tem um dos maiores déficits fiscais da zona do euro — isto é, gasta mais do que arrecada, antes mesmo de considerar o custo de refinanciar sua dívida.

O tema deve ganhar importância nos próximos meses. O governo minoritário do primeiro-ministro Sébastien Lecornu precisa definir a meta de déficit para 2027 e apresentar um projeto de orçamento ao Parlamento até 6 de outubro. A disputa política em torno desse plano ocorre já sob o foco dos mercados, que buscam sinais de que Paris conseguirá recuperar o controle das finanças.

Debate expõe propostas opostas para reduzir o rombo

O confronto sobre a dívida também envolveu Gabriel Attal, ex-primeiro-ministro e candidato de centro-direita. Mélenchon defendeu eliminar todos os subsídios às empresas como forma de reduzir o déficit, proposta classificada como perigosa por Édouard Philippe, outro nome de centro-direita. Philippe afirmou que os franceses precisariam trabalhar por mais tempo para reequilibrar as contas.

Raphaël Glucksmann, de centro-esquerda, recebeu aplausos ao criticar os planos de imigração de Le Pen. Para ele, reduzir a entrada de imigrantes não resolveria os problemas fiscais do país. Marine Tondelier, líder dos Verdes, e Bruno Retailleau, líder conservador, também participaram do debate.

Empresários seguem pessimistas e bolsas sentem a incerteza

Uma pesquisa da OpinionWay para a associação empresarial Medef mostrou que 82% dos empresários estão pessimistas quanto ao impacto das políticas do próximo presidente sobre a economia, independentemente de quem vencer a eleição. O resultado indica que a desconfiança não se limita a Le Pen, mas ajuda a explicar por que sua fala sobre cortes de gastos foi direcionada ao público empresarial.

As ações das principais empresas francesas chegaram ao menor nível em um mês na manhã desta quinta-feira. O movimento refletiu a preocupação dos investidores com o orçamento que será apresentado e com os riscos políticos associados à eleição presidencial do ano que vem. Quando o mercado teme que o governo gaste mais ou tenha dificuldade para aprovar ajustes, aumenta a percepção de risco sobre a dívida e sobre a economia.

O que vem pela frente para investidores e empresas

As pesquisas apontam que Le Pen deve vencer o primeiro turno, em abril de 2027, por ampla margem e aparece bem posicionada para o segundo turno, previsto para maio. Mélenchon é apontado por algumas sondagens como possível adversário, enquanto outras indicam Édouard Philippe como rival mais provável.

Para os investidores, o próximo teste será a proposta orçamentária do governo e sua tramitação no Parlamento. Para as empresas, o ponto central será saber se a promessa de controle da dívida virá acompanhada de medidas concretas e politicamente viáveis. A combinação entre cortes, impostos, aposentadorias e subsídios definirá se Le Pen conseguirá transformar a sinalização de responsabilidade fiscal em confiança duradoura.