A inadimplência acima de 90 dias na carteira de crédito agro da Caixa Econômica Federal chegou a 20,74% no segundo trimestre de 2026, ante 18,29% nos três primeiros meses do ano e 7,02% um ano antes. Apesar da alta, a direção do banco afirmou que o crescimento do indicador perdeu velocidade e apresenta sinais de estabilização, o que pode limitar a deterioração dos empréstimos rurais nos próximos meses.
Carteira agro ainda concentra o principal risco de crédito
O índice acima de 90 dias é usado pelos bancos para identificar operações com atraso prolongado, que apresentam maior probabilidade de inadimplência efetiva. Na prática, quanto maior essa taxa, maior a necessidade de reconhecer perdas ou reforçar provisões, o que pode pressionar o resultado da instituição.
Entre o primeiro e o segundo trimestre, a taxa subiu 2,45 pontos percentuais. Na comparação anual, o avanço foi de 13,72 pontos percentuais: o indicador praticamente triplicou em 12 meses. Ainda assim, Marcos Brasiliano Rosa, vice-presidente de finanças e controladoria da Caixa, disse que a curva já mostra “perda de velocidade”.
Banco vê melhora nos dados mais recentes
Adriano Assis Matias, vice-presidente de varejo da Caixa, afirmou que a trajetória do indicador se estabilizou na faixa de 20%. Segundo ele, houve melhora em junho e julho, meses posteriores ao encerramento do segundo trimestre, embora os números detalhados desses períodos não tenham sido apresentados.
A avaliação é importante porque uma estabilização não significa que a inadimplência voltou a níveis baixos. Ela indica, neste momento, que o ritmo de deterioração pode ter diminuído. Para o banco, isso reduz a pressão adicional sobre a qualidade da carteira, desde que a recuperação dos produtores e das empresas rurais continue.
Renegociação de dívidas pode conter novos atrasos
A Caixa espera que a melhora prossiga, em parte devido ao programa de reestruturação de dívidas rurais lançado pelo governo federal no mês passado. A Medida Provisória 1.376 autorizou linhas especiais para a composição de débitos de produtores e cooperativas que sofreram perdas climáticas ou de mercado em duas ou mais safras entre 2019 e 2025.
O mecanismo permite reorganizar compromissos que ficaram difíceis de pagar e pode evitar que mais operações ultrapassem 90 dias de atraso. Para os bancos, a renegociação tende a melhorar a adimplência ao distribuir o pagamento ao longo do tempo, embora a recuperação do crédito passe a depender da capacidade financeira dos tomadores.
Desenrola também ajuda carteira comercial
No crédito comercial, a Caixa destacou o efeito do Novo Desenrola sobre a inadimplência de pessoas físicas. Adriano Matias afirmou que o resultado teria sido pior sem o programa de renegociação de dívidas e classificou a iniciativa como importante para a gestão da carteira.
Esse efeito ocorre porque a renegociação transforma uma dívida vencida em um contrato com novas condições de pagamento. O consumidor pode voltar a pagar regularmente, enquanto o banco reduz a quantidade de operações problemáticas. O resultado, porém, depende da manutenção da renda e da capacidade de o cliente cumprir o novo acordo.
Resultado do banco e próximos sinais a acompanhar
A Caixa divulgou, na noite de quarta-feira, lucro líquido recorrente de segundo trimestre 5,9% maior que o registrado no mesmo período de 2025. A carteira de crédito total terminou junho em R$ 1,45 trilhão, com expansão próxima de 12% em um ano.
O crescimento do crédito dá suporte ao resultado, mas também aumenta a exposição do banco ao risco de calote. Para investidores e para o setor rural, os próximos dados relevantes serão a evolução da inadimplência agro após junho, o volume de contratos renegociados pela MP 1.376 e a capacidade dos produtores de retomar os pagamentos. A estabilização, portanto, é um sinal de alívio, mas ainda não representa uma reversão completa do problema.
Impacto para a sociedade
A evolução das dívidas rurais pode afetar produtores, cooperativas e a oferta de crédito no campo. As renegociações autorizadas pelo governo podem aliviar a situação financeira de empresas que tiveram perdas, mas também prolongam o processo de recuperação dos empréstimos concedidos pelos bancos.
