A presidente do Federal Reserve de Cleveland, Beth Hammack, afirmou nesta quinta-feira que “agora é o momento de agir” e elevar os juros nos Estados Unidos para combater uma inflação que continua acima do objetivo do banco central. A declaração reforça a divisão dentro do Fed e aumenta a atenção sobre as próximas decisões de política monetária, ainda que o mercado espere a manutenção das taxas nas reuniões de setembro e outubro.
Hammack vê espaço para uma nova alta
Em entrevista durante o simpósio anual do Fed em Jackson Hole, no estado de Wyoming, Hammack disse que os dados recentes ainda mostram que a inflação está distante da meta. Um relatório divulgado na quarta-feira apontou que os preços avançam a um ritmo próximo de 3% em termos anualizados, apesar da desaceleração observada nas taxas mensais nos últimos meses.
Para a dirigente, a política monetária não parece suficientemente restritiva quando são observadas as condições financeiras e o comportamento dos participantes do mercado. Juros mais altos reduzem o estímulo ao consumo e ao investimento, encarecendo empréstimos e financiamentos, com o objetivo de diminuir a pressão sobre os preços.
O receio com o impacto da inflação nas famílias
Hammack afirmou que a inflação permanece acima do objetivo há mais de cinco anos e que a demora para agir pode tornar o processo de desinflação mais doloroso. Quanto mais tempo os preços avançam acima do desejado, maior é o risco de famílias e empresas incorporarem essa alta às suas decisões de consumo, salários e preços.
A dirigente relatou ter conversado recentemente com trabalhadores em Erie, na Pensilvânia. Segundo ela, mesmo pessoas empregadas e com bons salários dizem ter dificuldade para fechar as contas e reduzir gastos considerados básicos de lazer. O comentário evidencia que, para Hammack, a inflação não é apenas um indicador macroeconômico, mas um problema que afeta diretamente o orçamento das famílias.
A posição no encontro de julho
Hammack foi uma das três autoridades que discordaram da decisão tomada na reunião de julho do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), responsável por definir os juros americanos. A maioria optou por manter a taxa básica em uma faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano, enquanto os dissidentes defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual.
Como Hammack tem direito a voto neste ano, sua posição mostra que o debate interno não se limita a uma manifestação isolada de uma autoridade sem participação direta nas decisões. Ainda assim, a política do Fed é definida pelo conjunto dos membros votantes, e a declaração não altera automaticamente a taxa vigente.
Inflação tem causas além da demanda
Parte da aceleração dos preços neste ano foi associada aos efeitos da guerra entre Irã e Israel, às tarifas comerciais e ao aumento da demanda relacionado à inteligência artificial. Choques desse tipo podem elevar custos ou reduzir a oferta, fatores que normalmente são vistos pelos bancos centrais como temporários.
O receio de alguns dirigentes é que esses efeitos deixem de ser passageiros e passem a contaminar salários, contratos e expectativas. Nesse cenário, uma alta de juros pode ser usada para impedir que a inflação se torne persistente, mesmo que a origem inicial do problema não esteja diretamente ligada ao excesso de consumo.
O que o mercado espera e o que vem a seguir
Apesar do tom mais duro de Hammack, os preços negociados no mercado indicam expectativa de manutenção dos juros nas reuniões de setembro e outubro. A previsão predominante aponta para uma nova alta apenas em dezembro, o que mostra que os investidores ainda não consideram provável uma mudança imediata na estratégia do Fed.
Para quem investe, trabalha ou consome no Brasil, o ponto principal é acompanhar se a defesa de Hammack ganhará apoio entre outros dirigentes. Uma elevação nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar e apertar as condições financeiras globais, com possíveis efeitos sobre produtos importados, inflação e juros domésticos. Por enquanto, trata-se de uma pressão dentro do debate do Fed, não de uma decisão oficial de aumento.
Impacto para a sociedade
Uma eventual alta de juros nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar e encarecer o financiamento no mercado internacional. Para o brasileiro, isso pode pressionar preços de produtos importados e dificultar cortes de juros no país, embora a declaração de Beth Hammack ainda não represente uma decisão do Fed.
