Além do IPCA-15 mais favorável, o fluxo de investidores estrangeiros e a expectativa de um novo corte da Selic aparecem como catalisadores adicionais para a alta do Ibovespa nesta quarta-feira (26). O índice avançava pela sexta sessão consecutiva e subia 0,86%, aos 176.080,39 pontos por volta das 10h23, enquanto o mercado ajustava os preços dos ativos ao cenário de inflação mais baixa no Brasil.
Inflação negativa reforça aposta em corte de juros
O IPCA-15 recuou 0,40% em agosto, registrando a primeira deflação do ano e o pior resultado desde agosto de 2025, quando havia caído 0,14%. Em 12 meses, o indicador acumulou alta de 4,24%, abaixo dos 4,52% registrados em julho e dentro do intervalo de tolerância da meta de inflação, cujo centro é de 3%.
O resultado foi mais intenso que a queda de 0,30% projetada pelo mercado. A composição foi considerada predominantemente benigna, favorecida principalmente por energia elétrica e passagens aéreas. Por outro lado, os serviços subjacentes, que ajudam a medir a persistência da inflação, aceleraram acima do esperado.
Na curva de juros, o efeito foi mais limitado porque os preços já incorporam, em grande medida, a possibilidade de um corte adicional de 0,25 ponto percentual na Selic. Juros menores reduzem o custo de financiamento para empresas e consumidores e aumentam o valor presente dos lucros esperados das companhias, especialmente as mais dependentes de crédito.
Como o fluxo estrangeiro influencia a bolsa
A entrada de recursos estrangeiros funciona como um reforço à alta porque amplia a demanda por ações brasileiras e pode sustentar a valorização do índice mesmo quando alguns investidores locais permanecem cautelosos. Esse movimento também costuma favorecer empresas líquidas e setores com maior participação no Ibovespa.
O efeito, porém, depende do ambiente internacional. Uma mudança nas expectativas sobre os juros americanos, no risco geopolítico ou no dólar pode alterar rapidamente a direção desses fluxos. Nesta quarta, o dólar à vista subia 0,37%, a R$ 5,1596, acompanhando a valorização da moeda americana no exterior.
PCE mantém incertezas sobre os juros nos Estados Unidos
O PCE, índice de preços de despesas de consumo pessoal e medida de inflação preferida pelo Federal Reserve, subiu 0,2% em julho. O indicador acumulou alta de 3,7%, enquanto o núcleo, que exclui alimentos e energia, avançou 0,2% no mês e 3,3% no comparativo anual.
Para uma economista do ASA, o dado veio em linha com a leitura do mercado e não muda a narrativa para os juros americanos. Ainda assim, a inflação segue pressionada e preocupa o Fed, que terá novos dados, incluindo o relatório de empregos de agosto, antes da reunião de setembro. As bolsas dos Estados Unidos operavam com viés de baixa.
Ormuz e política doméstica permanecem no radar
Irã e Omã ainda negociavam os detalhes de um possível corredor temporário no Estreito de Ormuz, enquanto o impasse entre Teerã e Washington continuava. As declarações do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, indicaram que o país não pretende recuar no conflito, e Donald Trump afirmou que o líder supremo do Irã estaria gravemente ferido, mas não morto.
O petróleo chegou a cair 5% na véspera após notícias sobre um possível cessar-fogo, mas a falta de um acordo definitivo mantém o risco geopolítico. No cenário brasileiro, a pesquisa Indexa mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro, reduzindo a diferença de dez para cinco pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
O que observar até o fim do pregão
O Ibovespa avançava para perto de 176,2 mil pontos, o dólar comercial era negociado a R$ 5,16 e os juros futuros operavam mistos. Para quem investe, a combinação de inflação corrente mais baixa, possível corte da Selic e fluxo estrangeiro melhora o ambiente para ativos de risco, mas não elimina a sensibilidade a serviços persistentes, ao Fed, às eleições e ao petróleo.
Para consumidores e trabalhadores, uma Selic menor tende a aliviar o custo de empréstimos e financiamentos com alguma defasagem, enquanto aplicações pós-fixadas podem oferecer menor remuneração. O próximo passo será verificar se a desinflação se consolida e como o Banco Central traduzirá esses dados em sua decisão de juros.
Impacto para a sociedade
A deflação do IPCA-15 reduz a pressão sobre os preços no curto prazo, mas ainda será necessário confirmar se a desaceleração é persistente. A expectativa de corte da Selic pode baratear o crédito e reduzir a remuneração de aplicações pós-fixadas, enquanto conflitos em torno do Estreito de Ormuz podem afetar o petróleo e, consequentemente, combustíveis e outros preços no Brasil.
