Investidores avaliam que há poucas diferenças entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas perspectivas de ajuste fiscal, apesar da disputa entre esquerda e direita na eleição presidencial de outubro. O mercado já considera provável algum esforço para desacelerar o aumento da dívida em um eventual segundo mandato de Lula, mas duvida que qualquer um dos dois consiga promover uma mudança suficientemente forte e crível na trajetória das contas públicas.

Por que o mercado duvida de um ajuste amplo

Para estabilizar a dívida até 2031, seria necessário um esforço fiscal de pelo menos 2,5 pontos percentuais do PIB, cerca de R$ 350 bilhões, segundo Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays. O tamanho da economia é usado como referência porque permite comparar o esforço exigido com a capacidade de arrecadação e de gasto do governo.

O desafio é que o orçamento brasileiro tem pouca flexibilidade. Em 2026, 92% das despesas primárias — aquelas que não incluem os juros da dívida — são obrigatórias. Os gastos discricionários, que podem ser mais facilmente alterados, equivalem a aproximadamente 2% do PIB. Por isso, um ajuste duradouro teria de alcançar aposentadorias, salários do funcionalismo, benefícios sociais e regras de correção automática das despesas.

Dívida e déficit continuam no centro da eleição

O déficit nominal, que inclui o resultado das contas do governo antes e depois dos juros da dívida, teve média de 8,6% do PIB entre 2023 e 2025. Nos 12 meses encerrados em junho, subiu para 9,99% do PIB.

Também em junho, a dívida bruta do governo alcançou 81,9% do PIB, uma alta de 3,3 pontos percentuais no primeiro semestre. As projeções de economistas consultados pelo Banco Central indicam déficits primários até 2029, mesmo com as metas oficiais prevendo superávits — que excluem algumas despesas, como parte dos precatórios.

Diferenças entre os cenários, mas sem solução garantida

A consultoria TS Lombard estima que Lula buscaria reformas nos gastos após a eleição, mas calcula que, mesmo nesse cenário, a dívida chegaria a um pico de 94,7% do PIB em 2034. Para Flávio Bolsonaro, a projeção considera um ajuste mais rápido e uma regra de gastos vinculada à dívida pública, mas ainda assim a dívida atingiria 90% do PIB em 2032.

A diferença, portanto, está mais na velocidade esperada do ajuste do que na percepção de uma solução definitiva. A TS Lombard observa que Flávio abandonou propostas anteriores para flexibilizar a indexação automática das despesas depois de enfrentar resistência política. Para Marcelo Kalim, presidente do C6, o candidato pode demonstrar maior disposição, mas a comprovação dependeria das medidas adotadas após assumir o governo.

Congresso será decisivo para qualquer presidente

O próximo presidente precisará negociar com um Congresso fragmentado. Na eleição, serão escolhidos os 513 deputados federais e 54 dos 81 senadores, e a composição das duas Casas determinará a capacidade de aprovar mudanças em despesas obrigatórias, benefícios e regras orçamentárias.

As primeiras medidas do vencedor serão observadas como um teste de credibilidade. Para convencer os investidores, não bastará anunciar uma meta: será necessário apresentar ações robustas e indicar que novas etapas do ajuste poderão ser aprovadas. A avaliação predominante entre analistas é que um esforço fiscal completo, na escala estimada, parece improvável para qualquer dos dois candidatos.

O que isso significa para investidores e para a economia

A deterioração fiscal tende a manter pressão sobre os juros. Hoje, a Selic de 14%, diante de uma inflação anual de 4,44%, ajuda a sustentar o real e torna aplicações de renda fixa pós-fixadas mais sensíveis à política monetária. Ao mesmo tempo, juros elevados encarecem o crédito para consumidores e empresas e podem reduzir o ritmo de atividade econômica.

O real acumula valorização de 5,8% ante o dólar em 2026 e está quase 20% mais forte desde o fim de 2024, apoiado também por contas externas sólidas e termos de troca favoráveis. Esse movimento mostra que o mercado ainda pode financiar o Brasil mesmo com ceticismo fiscal, mas os próximos sinais serão as medidas do novo governo, a composição do Congresso e a capacidade de conter o crescimento da dívida.

Impacto para a sociedade

A trajetória das contas públicas influencia a capacidade do governo de financiar saúde, educação e outros serviços, além de afetar impostos e investimentos públicos. Se a dívida continuar subindo, o país pode precisar manter juros elevados por mais tempo, encarecendo empréstimos e financiamentos para famílias e empresas. A combinação também pode pressionar o câmbio e, indiretamente, os preços de produtos importados.