As ações da Hapvida (HAPV3) chegaram a cair 4,72% nesta terça-feira (25), a R$ 6,06, ampliando a pressão sobre a operadora de saúde após o balanço do segundo trimestre. O movimento reflete dois fatores: a incerteza sobre contratos coletivos considerados deficitários e a redução da participação da gestora Squadra na companhia.

Contratos podem reduzir receita, apesar de melhorar a carteira

A Hapvida informou que está avaliando contratos coletivos com preços considerados defasados. O conjunto envolve cerca de 947 mil beneficiários, o equivalente a aproximadamente 11% da base da empresa, e poderá passar por reajustes ou ser descontinuado nos próximos 12 meses.

Na hipótese mais negativa, a companhia poderia deixar de atender cerca de 665 mil beneficiários, o que representaria uma redução de aproximadamente 8% de sua carteira. A saída de contratos deficitários tende a melhorar a qualidade financeira dos clientes mantidos, mas também pode diminuir a receita e dificultar a diluição dos custos fixos da rede própria.

É justamente essa combinação que preocupa o mercado: a empresa pode obter algum alívio nas margens ao se desfazer de contratos que geram prejuízo, mas, ao mesmo tempo, perder escala e visibilidade sobre a receita futura. Para Fábio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, o comunicado não eliminou a principal dúvida deixada pelo balanço: como a Hapvida conseguirá recuperar sua rentabilidade e gerar caixa.

Resultado fraco aumentou a cobrança por previsibilidade

A reação ocorre depois de um segundo trimestre em que o Ebitda, indicador que aproxima a geração operacional de caixa, caiu 44%. A margem Ebitda recuou para 6,3%, enquanto a sinistralidade, parcela da receita comprometida com despesas assistenciais, chegou a 75,2%.

Esse cenário faz com que o mercado não cobre apenas uma melhora operacional, mas também sinais mais claros sobre receitas, margens e fluxo de caixa. Desde 3 de agosto, os papéis acumulam queda próxima de 50%. No ano, o recuo chega a 57%, segundo os dados disponíveis.

Venda da Squadra adicionou pressão às cotações

Outro fator negativo foi a redução da posição da Squadra, que se desfez de cerca de 3,87% das ações da Hapvida. A gestora classificou o investimento como um erro e também fez críticas à administração da companhia.

Para Gustavo Bertotti, economista e chefe de renda variável da Fami Capital, a venda reforça a percepção de que os fundamentos da empresa estão fragilizados. Quando um investidor relevante reduz sua participação, o movimento pode aumentar a oferta de ações no mercado e afetar a confiança de outros investidores, especialmente em um papel que já acumula queda superior a 45% em agosto e de 85% em 12 meses.

Juros elevados também pesam sobre a empresa

A expectativa de uma Selic terminal mais alta em 2026 é outro elemento desfavorável. Juros elevados aumentam o custo de novas dívidas e encarecem a rolagem de financiamentos existentes, pressionando empresas endividadas.

Além disso, a renda fixa passa a oferecer retornos mais atrativos com menor risco, o que pode reduzir o interesse por ações de companhias cíclicas e em processo de recuperação operacional. No caso da Hapvida, esse efeito se soma às dúvidas sobre a carteira de clientes e à piora recente dos indicadores financeiros.

O que acompanhar nos próximos meses

Os investidores devem observar se a Hapvida conseguirá reajustar os contratos defasados sem provocar perda excessiva de beneficiários e receita. Também será importante verificar se a eventual saída de contratos deficitários produzirá melhora efetiva na margem e na geração de caixa, ou apenas reduzirá o tamanho da operação.

Por enquanto, a queda até R$ 6,06 mostra que o mercado continua reagindo à falta de visibilidade, e não apenas ao resultado trimestral já divulgado. A evolução dos contratos, o comportamento da sinistralidade, o endividamento e novas movimentações de acionistas relevantes devem orientar a percepção sobre os próximos passos da companhia.