A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro passou a ser um novo fator para definir o rumo dos investimentos, ao lado do nó fiscal brasileiro. Embora as pesquisas apontem uma corrida aberta e polarizada, o ajuste das contas públicas a partir de 2027 será, na avaliação do analista Matheus Spiess, o principal divisor de águas para o dólar, a Bolsa e os juros, independentemente de quem vencer.

Eleição aumenta a volatilidade, mas o fiscal decide o mercado

O início oficial das campanhas tende a elevar as oscilações dos ativos porque discursos sobre gastos, impostos e programas econômicos alteram as expectativas dos investidores. Mudanças nas pesquisas também podem provocar reações rápidas, especialmente quando indicam uma eleição mais competitiva ou uma alteração na probabilidade de vitória de cada candidato.

O mecanismo central, porém, passa pelas contas públicas. A combinação de déficit primário, Selic em 14% ao ano e trajetória ascendente da dívida mantém elevado o chamado prêmio de risco — uma compensação exigida para investir em um país percebido como mais arriscado. Esse custo aparece nos juros dos títulos públicos, dos financiamentos e das empresas.

O que poderia melhorar dólar, Bolsa e juros

Para que os ativos brasileiros passem por uma reprecificação positiva — com queda do dólar, alta da Bolsa e recuo dos juros —, seria necessária uma sinalização clara e confiável de ajuste fiscal a partir de 2027. Isso significa mostrar como o governo pretende controlar a expansão das despesas e estabilizar a trajetória da dívida.

Com menor percepção de risco, investidores poderiam exigir retornos menores para financiar o governo e as empresas. O Banco Central também teria mais espaço para reduzir a Selic, o que tende a baratear o crédito, aliviar o custo de capital das companhias e tornar a renda fixa pós-fixada menos rentável. Ao mesmo tempo, juros menores costumam favorecer ações e outros ativos de maior risco.

O risco de gastos maiores e inflação desancorada

O cenário oposto envolve o descumprimento de metas fiscais ou uma expansão descontrolada dos gastos. Nesse caso, aumenta a preocupação de que a dívida continue crescendo, o que pode provocar saída de capital estrangeiro, pressão sobre o câmbio e necessidade de manter os juros elevados por mais tempo.

O efeito chega à economia real por diferentes canais. Um dólar mais pressionado encarece produtos importados e pode dificultar a queda da inflação. Já uma Selic alta aumenta as parcelas de empréstimos e financiamentos, reduz o consumo e desestimula investimentos produtivos, contribuindo para uma desaceleração da atividade.

Como Lula e Flávio entram nessa equação

O cenário-base indicado pelas pesquisas é de um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas com margem apertada: Lula aparece com leve vantagem, enquanto alguns levantamentos apontam empate técnico. A leitura é de que qualquer um dos dois ainda pode vencer, em uma disputa marcada por alta rejeição dos candidatos.

Lula enfrenta o desgaste natural de quem está no governo e os efeitos da desaceleração econômica. Flávio, por sua vez, apresenta desempenho melhor nesta fase do que Jair Bolsonaro apresentava no início da campanha de 2022, embora as pesquisas daquele período tenham subestimado a força do eleitorado conservador. As propostas econômicas de cada campanha serão acompanhadas de perto porque podem alterar as expectativas fiscais.

O que observar até a eleição e depois dela

Os estímulos fiscais adotados pelo governo ajudaram a sustentar a economia, mas esse impulso perde força enquanto a política monetária continua restritiva. Além do equilíbrio das contas, permanecem desafios estruturais como baixa produtividade, ambiente de negócios, insegurança jurídica e a necessidade de criar condições para o crescimento sustentável.

Para quem investe, trabalha ou consome, o ponto prático é acompanhar menos as oscilações isoladas das pesquisas e mais a credibilidade das propostas para 2027. Um ajuste fiscal consistente pode reduzir juros e aliviar o crédito; a ausência dele tende a prolongar o aperto monetário e a pressão sobre o câmbio. A resposta dos mercados dependerá, portanto, tanto do resultado eleitoral quanto dos compromissos concretos assumidos pelo vencedor.

Impacto para a sociedade

A disputa eleitoral pode afetar juros, inflação, crédito e emprego porque as propostas para controlar ou ampliar os gastos públicos influenciam a dívida do governo e a confiança na economia. Se o risco fiscal continuar elevado, a Selic pode permanecer alta por mais tempo, encarecendo financiamentos e dificultando a redução do custo de vida.