O Tesouro IPCA+ 2032 voltou a oferecer rendimento real de 8% ao ano nesta segunda-feira (24), após fechar a sexta-feira em 7,96%, devolvendo parte do alívio da semana passada. A alta ocorreu depois das novas projeções do Boletim Focus, que elevaram a estimativa de inflação para 2027 e reduziram a previsão de crescimento do PIB em 2026, enquanto os investidores aguardam o primeiro discurso de Kevin Warsh no simpósio de Jackson Hole, na sexta-feira.
Focus mantém inflação acima da meta e reduz previsão para o PIB
O mercado manteve em 5,02% a projeção para o IPCA de 2026, pela segunda semana consecutiva. Para 2027, porém, a estimativa subiu de 4,24% para 4,25%. As previsões para 2028 e 2029 permaneceram em 3,80% e 3,50%, respectivamente. Todas seguem acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central.
A projeção para a Selic ao fim de 2026 ficou em 13,75% ao ano pela terceira semana seguida. Para 2027, a mediana continuou em 12%, e para 2028, em 10,50%. Já a estimativa de crescimento do PIB deste ano caiu de 1,98% para 1,95%, sinalizando uma visão um pouco mais fraca para a atividade econômica.
Taxas dos títulos refletem cautela com inflação e juros
Nos demais títulos indexados à inflação, as mudanças foram pequenas. O Tesouro IPCA+ 2040 e o IPCA+ com juros semestrais 2045 passaram de 7,49% para 7,50% ao ano. O IPCA+ 2050 subiu de 7,31% para 7,32%, enquanto o IPCA+ com juros semestrais 2037 recuou de 7,70% para 7,69%. O papel com vencimento em 2060 permaneceu em 7,37%.
Nos prefixados, as taxas longas tiveram leve queda: o título com juros semestrais e vencimento em 2037 caiu de 14,59% para 14,56%, e o Prefixado 2032 passou de 14,57% para 14,55%. O Prefixado 2029 avançou de 14,17% para 14,18%. As taxas podem oscilar diariamente porque os preços dos títulos se ajustam às expectativas para inflação, juros e risco fiscal.
Discurso de Warsh adiciona incerteza ao cenário externo
No exterior, o rendimento do Treasury americano de dez anos recuou para 4,71%, depois de duas sessões de alta. Os investidores se posicionam antes da estreia de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve no simpósio de Jackson Hole, em um ambiente de inflação ainda acima da meta de 2% e dívida dos Estados Unidos superior a US$ 40 trilhões.
A expectativa aumentou porque, após a reunião do Fed em julho, Warsh não ofereceu sinal claro sobre a trajetória dos juros. Antes do discurso, serão divulgados o núcleo do índice de preços PCE de julho, principal medida de inflação acompanhada pelo banco central americano, e a segunda estimativa do PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre. Mudanças nos juros americanos costumam afetar o dólar, os títulos globais e o custo de financiamento de países emergentes, incluindo o Brasil.
Inflação e contas públicas pressionam as expectativas
O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, afirmou que as expectativas de inflação continuam bem acima da meta em todo o horizonte relevante. Ele também destacou que a mediana para o resultado primário permanece deficitária entre 2026 e 2029, em desacordo com as metas de resultado não negativo do governo.
Esse quadro reduz a confiança na capacidade de estabilização das contas públicas e pode manter elevadas as taxas exigidas pelos investidores. Juros mais altos encarecem a dívida do governo, o crédito para empresas e famílias e tendem a desestimular consumo e investimento. Ao mesmo tempo, tornam aplicações de renda fixa mais rentáveis em termos nominais, embora o retorno real dependa da inflação.
O que observar nos próximos dias
Para quem investe, a volta do IPCA+ 2032 aos 8% mostra que uma única semana de alívio não eliminou a volatilidade dos títulos públicos. A decisão de manter ou alterar posições depende do prazo, do risco aceito e da necessidade de liquidez, já que oscilações de mercado podem afetar o preço de venda antes do vencimento.
O próximo foco estará nos dados de inflação e atividade nos Estados Unidos e no discurso de Warsh, além da evolução das expectativas brasileiras no Focus. Esses eventos podem alterar a percepção sobre os juros futuros, o câmbio e o espaço para eventual flexibilização monetária no Brasil.
Impacto para a sociedade
As projeções de inflação e juros influenciam o custo de empréstimos, financiamentos e parcelamentos, além do rendimento de aplicações de renda fixa. Uma expectativa de crescimento menor também pode afetar contratações e decisões de consumo e investimento das empresas.
