Javier Milei decidiu manter seu plano econômico sem mudanças relevantes, mesmo diante da desaceleração da atividade, da pressão inflacionária e da crescente preocupação de empresários e aliados com o cenário até a eleição presidencial de 2027. A resistência do presidente argentino a ajustes ganhou força justamente quando indicadores de renda, indústria e consumo passaram a mostrar que a estabilização ainda não se converteu em uma recuperação ampla da economia.

Presidente rejeita mudanças e mantém apoio à equipe

Interlocutores que tentaram discutir ajustes ou alterações de abordagem encontraram forte resistência de Milei. Em uma das conversas, o presidente teria prolongado pelo WhatsApp uma discussão iniciada presencialmente, enviando argumentos e estatísticas para rebater as críticas ao programa.

Milei interpreta parte das reclamações como uma tentativa coordenada de desgastar seu governo antes da próxima disputa presidencial. Na avaliação do presidente, críticos não reconhecem a dimensão da crise herdada em dezembro de 2023 nem os resultados que ele atribui ao programa de estabilização econômica, baseado em disciplina fiscal e controle dos desequilíbrios acumulados.

O chefe de Estado também mantém o respaldo a integrantes de sua equipe, entre eles Federico Sturzenegger, apesar das críticas internas. Um consultor ligado à La Libertad Avanza resumiu a disposição presidencial dizendo que “Milei vai ser Milei até o último dia”.

Atividade cresce menos e inflação acelera

A atividade econômica argentina avançou 1,9% no primeiro semestre de 2026, em ritmo inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior. O desempenho indica que a economia continua crescendo, mas perdeu velocidade, principalmente nos segmentos mais dependentes da demanda doméstica.

A inflação acumulada nos seis primeiros meses de 2026 chegou a 19,3%, acima dos 17,3% registrados no mesmo intervalo de 2025. A aceleração foi concentrada principalmente no primeiro trimestre. Quando os preços sobem mais rapidamente, a renda real das famílias diminui, o consumo perde força e as empresas enfrentam mais dificuldade para repassar custos sem reduzir vendas.

O cenário também ficou distante da expectativa que Milei transmitia a integrantes do governo no fim de 2025: crescimento de pelo menos 6% em 2026. Essa projeção era uma avaliação interna atribuída ao presidente, e não uma previsão pública formal.

Renda, consumo e indústria mostram fraqueza

A renda registrada de 14,5 milhões de pessoas caiu 0,5% em junho na comparação mensal e recuou 6,9% em relação a junho de 2025. O dado ajuda a explicar por que o crescimento observado em setores como agronegócio, mineração e energia ainda não se espalhou de forma consistente para o comércio e os serviços voltados às famílias.

A indústria metalúrgica registrou em julho a 20ª contração mensal consecutiva, com queda de 4,4% ante o mesmo mês do ano anterior. O consumo de massa, por sua vez, acumulou retração de 2,9% em 2026. A combinação de renda menor, inflação elevada e crédito mais difícil reduz a capacidade de compra e posterga investimentos das empresas.

Eleição de 2027 aumenta pressão sobre o governo

A preocupação do empresariado argentino deixou de se concentrar apenas na possibilidade de reeleição de Milei. Parte desse grupo passou a avaliar em que condições econômicas e políticas o país chegará à disputa presidencial de 2027, especialmente se a recuperação continuar restrita a poucos setores.

Na oposição, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, já se movimenta em torno de uma possível candidatura. Também surgem articulações de nomes externos à política tradicional, embora ainda sem anúncios formais.

O que observar até a eleição argentina

Para quem acompanha a economia argentina, o ponto central será verificar se a disciplina fiscal e a estabilização conseguem produzir uma recuperação mais disseminada, sem nova aceleração de preços. A persistência da estratégia significa que o governo não pretende compensar a fraqueza do consumo com uma mudança imediata de rumo.

Os próximos dados de atividade, renda, inflação e emprego devem definir o espaço político de Milei. Se a melhora permanecer concentrada em agronegócio, mineração e energia, a pressão por ajustes tende a continuar; se o consumo e a indústria reagirem, o presidente ganhará argumentos para sustentar seu programa até 2027.