A falta de mulheres na China está ajudando a alimentar golpes de falsas noivas, nos quais homens pagam grandes quantias a agências matrimoniais e acabam presos a casamentos baseados em mentiras. O fenômeno expõe como uma distorção demográfica criada ao longo de décadas abriu espaço para um mercado de “casamentos relâmpago”, com perdas financeiras e consequências emocionais para famílias inteiras.

Homens pagam por casamento rápido e descobrem a fraude

Aos 37 anos, Wang Zhuang já havia perdido a esperança de encontrar uma esposa quando viu anúncios de agências que prometiam apresentar mulheres recatadas, econômicas e dedicadas à vida doméstica. A proposta era evitar anos de relacionamentos sem perspectiva e acelerar a formação de uma família.

Ele viajou para Guiyang, na província de Guizhou, no sudoeste da China, e conheceu uma mulher que parecia atender aos requisitos. Os dois se encontraram apenas algumas vezes antes do casamento. Pouco depois, Wang descobriu que as informações fornecidas eram falsas: a mulher havia trabalhado como apresentadora de karaokê, tinha se casado três vezes, três filhos, uma infecção sexualmente transmissível grave e dívidas. Até a idade dela teria sido alterada.

Wang afirma que pagou à agência poucas horas depois de ser apresentado a várias pretendentes. Mais de um ano depois, ainda tenta se divorciar e recuperar parte das economias. Ele relata insônia, ansiedade, dificuldade de concentração no trabalho e conflitos com os pais, que o culpam pelo episódio.

Como a política do filho único produziu o desequilíbrio

O problema tem raízes na antiga política do filho único, mantida durante décadas pelo Partido Comunista Chinês. A preferência tradicional por meninos fez com que nascessem menos mulheres, criando um desequilíbrio que permaneceu mesmo após a suspensão da política, em janeiro de 2016.

Atualmente, há cerca de 30 milhões de homens a mais do que mulheres na China. O efeito é especialmente forte entre homens próximos dos 40 anos que vivem em cidades menores ou áreas rurais remotas, onde a oferta de possíveis parceiras é mais limitada.

Nessas regiões, as mulheres podem ser mais seletivas porque são muito procuradas. Wang afirma que, em sua cidade, os homens precisam ter carro, casa e uma família com negócios para conseguir se casar.

O custo financeiro de encontrar uma esposa

Além da concorrência entre os pretendentes, muitas famílias exigem o chamado “preço da noiva”, uma tradição em que a família do noivo entrega dinheiro à futura esposa ou aos parentes dela. Em áreas onde os homens superam amplamente as mulheres, esse pagamento se tornou um peso financeiro relevante.

Esse ambiente aumenta o poder de atração das agências matrimoniais. Elas oferecem uma solução rápida para homens pressionados pela idade, pelas exigências econômicas e pelo medo de não formar uma família. A promessa de uma esposa “adequada” transforma a escassez de mulheres em oportunidade comercial.

O risco é que a urgência reduza o tempo disponível para verificar a identidade, o histórico e as condições financeiras da pretendente. Quando a agência intermedeia o processo, o pagamento antecipado pode ser feito antes de o casal construir confiança ou confirmar as informações apresentadas.

Setor de encontros entra no radar de Pequim

O mercado de encontros não é novo na China, mas o crescimento de práticas fraudulentas levou a mídia estatal a alertar para a expansão rápida do setor, associada a ilegalidades e “caos”. A dimensão total dos golpes ainda é difícil de medir, mas o problema ganhou visibilidade suficiente para chamar a atenção das autoridades.

O caso mostra que a fraude não depende apenas de uma pessoa mentir sobre sua vida. Ela pode envolver agências que identificam homens vulneráveis, aceleram o casamento e cobram valores elevados em um ambiente no qual a pressão social e financeira já é intensa.

O que observar daqui em diante

Para as famílias afetadas, o impacto vai além do dinheiro: há disputas judiciais, dívidas, ansiedade e perda de confiança. Para quem trabalha ou sustenta os parentes, o golpe pode comprometer economias acumuladas durante anos e desorganizar a renda doméstica.

O próximo passo está na reação das autoridades ao mercado de casamentos relâmpago. Enquanto o desequilíbrio entre homens e mulheres persistir, a procura por intermediários continuará existindo. Sem fiscalização e verificação mais rigorosas, a mesma escassez que dificulta os casamentos pode continuar sendo usada para vender promessas falsas e cobrar milhões de famílias.