A J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, comprou 100% da Avibras, uma das principais empresas brasileiras de defesa, por meio da Globe Investimentos. A conclusão da transação, porém, está condicionada a um fator ainda não especificado. O negócio marca a entrada do grupo controlador da JBS no setor bélico e foi comunicado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Compra envolve a nova estrutura criada para a Avibras
A operação foi firmada pela Nova AVB, estrutura criada durante a reorganização da companhia, que está em recuperação judicial desde março de 2022. O valor da transação não foi divulgado.
A reorganização separou as atividades operacionais dos passivos antigos. Os ativos industriais e tecnológicos foram transferidos para uma nova unidade produtiva, enquanto a Avibras Aeroespacial original permaneceu responsável pelas dívidas submetidas ao processo judicial.
Na prática, esse desenho permite que o comprador assuma uma operação com capacidade produtiva e tecnológica, sem necessariamente incorporar diretamente todo o passivo acumulado pela empresa original. A nova estrutura deverá repassar recursos à companhia antiga para ajudar no pagamento dos credores da recuperação.
Joesley Batista já havia participado de captação de R$ 300 milhões
A aquisição consolida uma aproximação iniciada meses atrás. Joesley Batista participou de uma captação de R$ 300 milhões destinada à Avibras, operação que reuniu investidores privados e ajudou a financiar a retomada das atividades.
O valor investido individualmente pelo empresário não foi divulgado. A captação foi coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, que também participou da estruturação de uma alternativa ao plano de recuperação judicial e viabilizou a criação da Nova AVB.
A companhia voltou a operar gradualmente no primeiro semestre deste ano, após permanecer paralisada por anos. Suas unidades ficam em Jacareí e Lorena, no interior de São Paulo.
Crise deixou cerca de R$ 600 milhões em dívidas
Fundada em 1961 por engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Avibras produz mísseis, foguetes, sistemas de defesa antiaérea e outros equipamentos bélicos. A empresa também possui contratos com as Forças Armadas brasileiras e clientes no exterior.
A crise financeira se agravou depois da demissão de mais de 300 funcionários e de uma greve iniciada em setembro de 2022, que interrompeu as operações por mais de três anos. Em março deste ano, foi fechado um acordo para o pagamento de aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas.
O endividamento total acumulado no processo de recuperação judicial era estimado em cerca de R$ 600 milhões. Até setembro de 2025, salários e verbas rescisórias em atraso somavam R$ 204,5 milhões, sem considerar multas decorrentes do não pagamento.
J&F amplia atuação para além de alimentos e energia
A compra representa uma diversificação relevante para a J&F, cuja principal referência empresarial é a JBS, além de negócios ligados a alimentos, energia e serviços financeiros. No ano passado, a holding adquiriu a participação da Eletrobras na Eletronuclear, enquanto o PicPay, também ligado ao grupo, realizou uma oferta pública inicial de ações nos Estados Unidos no início deste ano.
Na Avibras, o desafio será transformar a retomada operacional em geração recorrente de receita, preservando contratos estratégicos e capacidade tecnológica. O setor depende de encomendas de longo prazo, investimentos elevados e relacionamento com governos, o que torna a recuperação mais complexa do que uma simples reabertura fabril.
O que falta para a operação avançar
O ponto central no curto prazo é a condição estabelecida para a conclusão da compra, que ainda não foi detalhada. Também será necessário acompanhar a análise do Cade e a implementação dos compromissos previstos na reorganização da companhia.
Para quem investe, a transação não representa uma mudança automática nas ações da JBS, já que a aquisição foi feita pela J&F, sua controladora, por meio da Globe Investimentos. Para trabalhadores, fornecedores e credores da Avibras, o efeito dependerá da capacidade do novo controlador de manter a produção, cumprir os acordos trabalhistas e sustentar os pagamentos previstos no processo judicial.
