O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (21) que a oposição tenta transformar os problemas do varejo em uma crise econômica generalizada. Embora tenha reconhecido a piora no setor, ele disse que os dados disponíveis apontam dificuldades concentradas em empresas mais dependentes de crédito, e não uma deterioração ampla da economia brasileira.

Ministro reconhece problema, mas rejeita diagnóstico de crise

Em entrevista, Durigan afirmou que o varejo enfrenta um cenário difícil, mas sustentou que o desempenho do setor precisa ser analisado dentro do conjunto da economia. “Quando a gente olha para a economia como um todo, mesmo o varejo tem um crescimento”, disse.

O ministro também afirmou que não houve uma explosão de falências e de recuperações judiciais no comércio. Esse mecanismo permite que empresas em dificuldades renegociem suas dívidas e organizem um plano para tentar continuar operando. De acordo com Durigan, o número desses processos, na verdade, apresentou redução.

Varejo fechou 45,9 mil vagas no primeiro semestre

O dado mais negativo está no mercado de trabalho. O comércio varejista fechou 45.900 vagas formais entre janeiro e junho de 2026, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Foi o pior resultado para um primeiro semestre desde o período da pandemia.

O desempenho contrasta com o resultado geral do emprego no mesmo intervalo: a economia brasileira criou 921 mil postos de trabalho. Durigan reconheceu que a perda de vagas no varejo é “um problema”, mas argumentou que ela não basta, isoladamente, para caracterizar uma crise em toda a economia.

Juros altos pressionam empresas e consumidores

Na avaliação do ministro, a principal fragilidade está em segmentos do varejo que dependem intensamente de crédito. As empresas precisam de financiamento para manter estoques e pagar fornecedores, enquanto os consumidores recorrem a compras parceladas para adquirir bens de maior valor.

O varejo costuma trabalhar com margens apertadas, isto é, uma diferença relativamente pequena entre a receita das vendas e os custos da operação. Quando os juros sobem, o custo para carregar estoques e refinanciar dívidas aumenta. Ao mesmo tempo, as parcelas ficam mais caras e parte das famílias reduz o consumo ou deixa de comprar.

Esse efeito combinado diminui a capacidade de empresas honrarem compromissos e pode levar a cortes de lojas, investimentos e empregos. Durigan afirmou, porém, que esse impacto da política monetária sobre um setor dependente de crédito não deve ser apresentado como prova de uma crise econômica generalizada.

Casas Bahia simboliza a pressão sobre o setor

A declaração ocorre após a Casas Bahia pedir recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia também anunciou o fechamento de 298 lojas e aproximadamente 3.000 demissões.

O caso reforça a preocupação com empresas que acumulam obrigações financeiras em um ambiente de crédito caro. Mas, para Durigan, uma dificuldade empresarial de grande visibilidade não representa necessariamente o comportamento de todos os segmentos do comércio ou da economia brasileira.

O que observar no emprego, no consumo e nos investimentos

Para quem trabalha no varejo, o resultado do Caged indica uma pressão concreta sobre contratações e manutenção de postos, ainda que o mercado de trabalho como um todo tenha criado vagas no semestre. Para os consumidores, o encarecimento do crédito tende a reduzir o poder de compra e dificultar o parcelamento de produtos.

Quem investe deve acompanhar a evolução do emprego, do consumo e do endividamento das empresas, além da trajetória dos juros. Esses fatores ajudam a distinguir uma fraqueza concentrada em companhias alavancadas de uma desaceleração mais disseminada. O próximo passo será observar se a perda de vagas e os pedidos de renegociação permanecem restritos ao varejo ou se começam a atingir outros setores.

Impacto para a sociedade

As dificuldades do varejo podem afetar diretamente o emprego, a oferta de lojas e o acesso dos consumidores a compras parceladas. Juros elevados encarecem o financiamento de empresas e famílias, aumentando a pressão sobre preços, contratações e renda disponível.