O Brasil pode ter em 2027 o pior ritmo de crescimento econômico desde a pandemia, segundo avaliação de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual. A projeção é de expansão de cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano, mesmo em um cenário considerado otimista, após um crescimento estimado em aproximadamente 2% em 2026. Juros ainda elevados e dúvidas sobre as contas públicas estão no centro da perspectiva mais fraca.

Juros altos devem pesar sobre a atividade em 2027

A Selic está em 14% ao ano, e as projeções de mercado indicam que a taxa básica pode terminar 2026 em torno de 13,75%. Para Mansueto, trata-se de um nível suficientemente alto para “machucar a atividade”. O efeito sobre a economia, porém, não ocorre de uma vez: a política monetária restritiva costuma atingir o consumo e os investimentos com defasagem.

Na prática, juros maiores elevam o custo de empréstimos para famílias e empresas, reduzem a demanda por bens duráveis e tornam mais caros os projetos de expansão. Também aumentam a atratividade da renda fixa em relação a ativos de maior risco, o que pode contribuir para uma postura mais cautelosa de investidores. Com menor circulação de crédito e consumo, empresas tendem a vender menos e podem adiar contratações.

Contas públicas continuam no centro das preocupações

O principal problema econômico do país, na avaliação do economista, é fiscal. O gasto público federal acumulou crescimento real de aproximadamente 21% entre 2023 e 2026, acima do avanço de cerca de 9% registrado entre 2014 e 2022. “Real” significa que o cálculo desconta a inflação, mostrando aumento efetivo do poder de gasto.

Embora o déficit primário tenha recuado de 2,4% do PIB para cerca de 0,5% em 2026, essa melhora não foi suficiente para estabilizar a dívida pública. O motivo é o aumento da despesa com juros, estimada em 8,5% do PIB neste ano, ante cerca de 6% em 2023. Com isso, o déficit nominal, que inclui o resultado primário e os juros, pode chegar a 9% do PIB.

Por que o cenário não é igual ao de 2015 e 2016

Mansueto pondera que um crescimento próximo de 1% não significa necessariamente uma crise como a recessão de 2015 e 2016. Naquela época, o país enfrentava problemas simultâneos nos setores de petróleo, energia elétrica e mercado imobiliário, além de inflação elevada, deterioração fiscal e forte aumento do desemprego.

Hoje, segundo o economista, não há uma grande crise setorial disseminada. A desaceleração projetada estaria mais ligada ao peso dos juros e à piora da percepção sobre a trajetória das contas públicas. A distinção é relevante porque indica uma economia enfraquecida, mas não necessariamente diante de um colapso generalizado de empresas e setores.

Plano fiscal pode mudar as expectativas

Na avaliação de Mansueto, um plano fiscal crível apresentado no início do próximo governo poderia alterar rapidamente as expectativas. O ponto central seria mostrar não apenas como reduzir o déficit, mas quando a dívida deixaria de crescer e começaria a cair.

Ele citou como referência o período do governo Michel Temer, quando participou da equipe econômica. Na ocasião, afirmou, a combinação de reformas e melhora das expectativas contribuiu para a queda dos juros de 14,25% para 6,5% ao ano em cerca de um ano e meio. A lógica é que uma trajetória fiscal mais confiável reduza o risco percebido, permitindo ao Banco Central trabalhar com juros menores ao longo do tempo.

O que observar até 2027

Para quem investe, consome ou trabalha, os próximos passos dependem da evolução da inflação, da decisão do Banco Central sobre a Selic e da capacidade do governo de controlar o crescimento dos gastos. Juros persistentemente altos tendem a favorecer aplicações pós-fixadas, mas pressionam crédito, consumo e investimentos produtivos; uma queda futura teria efeitos opostos, embora dependa de condições econômicas concretas.

O alerta de Mansueto, portanto, não é uma previsão de recessão, mas de forte perda de ritmo. O desempenho de 2027 dependerá principalmente de quanto tempo a política monetária continuará restritiva e de se o país conseguirá apresentar uma trajetória fiscal capaz de estabilizar a dívida.

Impacto para a sociedade

A combinação de juros altos e contas públicas pressionadas pode encarecer o crédito, reduzir o consumo e dificultar a geração de empregos em 2027. Para o governo, a piora fiscal também limita o espaço para investimentos e políticas públicas. Se houver um plano fiscal confiável, porém, a queda dos juros poderá aliviar parcelas, financiamentos e o custo de empresas.