A disparada dos juros dos Treasuries, títulos do Tesouro dos Estados Unidos, reacendeu entre investidores de renda fixa a discussão sobre o momento de comprar esses papéis. Com os títulos de longo prazo pagando taxas próximas das maiores em décadas, o mercado se divide entre a oportunidade de travar uma remuneração mais elevada e os riscos fiscais e inflacionários que ainda pressionam a dívida americana.
Taxas chegaram aos maiores níveis em mais de 20 anos
O rendimento, ou yield, do Treasury de 30 anos — referência para o custo de hipotecas de longo prazo nos Estados Unidos — ultrapassou 5,337% recentemente. O título de dez anos atingiu 4,748% no início desta semana. Em ambos os casos, as taxas estão em patamares não vistos há mais de duas décadas.
O movimento ocorre porque os preços dos títulos e seus rendimentos caminham em sentidos opostos. Quando há excesso de oferta ou menor procura, o preço do papel cai; para atrair compradores, o rendimento implícito sobe. Essa dinâmica tornou os Treasuries mais baratos, mas também refletiu uma deterioração das condições que tradicionalmente sustentavam a demanda pela dívida americana.
Quatro forças pressionaram a dívida americana
O primeiro fator é fiscal. O governo dos Estados Unidos opera com déficits anuais próximos de US$ 2 trilhões, enquanto a dívida pública se aproxima de US$ 40 trilhões. Para financiar as despesas, o Tesouro precisa emitir novos papéis continuamente, aumentando a quantidade de títulos disponível no mercado.
A concorrência por recursos também cresceu entre empresas e governos. Companhias de tecnologia aceleraram a emissão de dívida para financiar projetos relacionados à inteligência artificial, alcançando o recorde de US$ 145 bilhões em agosto de 2026. Ao mesmo tempo, Japão e China, grandes detentores de Treasuries, vêm reduzindo suas posições.
Outro elemento é a alta dos juros em outros mercados desenvolvidos. Títulos da Alemanha, França, Reino Unido e Japão passaram a oferecer retornos maiores, obrigando os papéis americanos a pagar um prêmio mais alto para continuar atraindo investidores globais.
Por que o Bank of America vê desconto nos títulos
O Bank of America avalia que os Treasuries estão historicamente baratos em relação aos fundamentos macroeconômicos dos Estados Unidos. Na leitura do banco, os preços atuais podem oferecer pontos de entrada interessantes para um horizonte de seis a 12 meses, em uma estratégia conhecida no mercado como comprar durante a queda.
Parte desse desconto, porém, está relacionada à perda temporária da função de proteção dos títulos. A correlação entre ações e Treasuries permanece positiva e próxima dos maiores níveis desde os anos 1990. Isso significa que os dois tipos de ativo têm caído juntos, em vez de um compensar as perdas do outro, levando os investidores a exigir um retorno maior para carregar a dívida americana.
O risco é a inflação continuar resistente
A tese de recuperação dos Treasuries depende de uma mudança no cenário econômico. O diagnóstico do banco é que o período de crescimento forte com inflação persistente está amadurecendo e pode perder força nos próximos seis a 12 meses.
Nesse caso, o mercado poderia deixar de tratar a economia americana como superaquecida e passar a precificar uma desaceleração gradual, acompanhada de algum aumento no risco de uma queda mais acentuada da atividade. Se isso ocorrer, os títulos podem recuperar parte de seu papel histórico de porto seguro e de diversificação.
O que observar antes dos próximos movimentos
Para quem investe em renda fixa internacional, a alta das taxas aumenta o retorno potencial contratado em dólares, mas não elimina os riscos de mercado. Uma nova rodada de inflação, déficits elevados ou vendas adicionais por investidores estrangeiros pode pressionar os preços dos papéis novamente.
O governo americano também agiu para reforçar a liquidez do mercado, o que ajuda a reduzir tensões de curto prazo. Ainda assim, a trajetória dos Treasuries dependerá da combinação entre inflação, crescimento, necessidade de financiamento de Washington e procura global por ativos americanos. A decisão de cada investidor envolve ainda o risco cambial e o prazo do título, que pode provocar oscilações relevantes antes do vencimento.
