A volta dos investidores estrangeiros é a condição-chave para que a recuperação do Ibovespa ganhe força e não fique restrita a um repique de curto prazo, afirmou Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research. A avaliação ocorre nesta terça-feira (19), quando o índice avançava e caminhava para interromper uma sequência de 11 pregões consecutivos de queda.

Alta desta terça-feira ainda é vista como reação técnica

Para Spiess, a valorização reflete principalmente uma reação depois de semanas de forte pressão sobre os ativos brasileiros. A melhora do cenário externo ajudou a reduzir a tensão nos mercados, mas, na avaliação do estrategista, ainda não eliminou as dúvidas relacionadas ao futuro econômico e político do Brasil.

“A recuperação é normal, porque sofreu muito”, afirmou. O movimento de baixa foi associado à saída de capital estrangeiro, a avaliações mais negativas sobre o país feitas por grandes bancos globais e à combinação de incertezas envolvendo juros, eleições e o ambiente internacional.

Por isso, um pregão positivo não necessariamente representa uma mudança definitiva de tendência. Em momentos de estresse, investidores podem recompor posições após quedas fortes, mas voltar a vender caso as incertezas permaneçam. Spiess também considera naturais novos movimentos de realização de ganhos e ajustes de posição.

Por que o investidor estrangeiro é decisivo para a bolsa

O capital estrangeiro costuma ter peso relevante na formação dos preços das ações brasileiras porque amplia a demanda por ativos locais. Quando investidores globais retornam, o aumento das compras pode sustentar altas mais amplas e duradouras, em vez de uma recuperação concentrada em poucos papéis.

Segundo Spiess, esse fluxo foi um dos principais motores da valorização da bolsa no início do ano. Naquele momento, investidores internacionais procuraram mercados considerados descontados e países que estavam em um ciclo de redução de juros. Agora, porém, a continuidade desse movimento depende de uma melhora na percepção sobre o Brasil.

O estrategista afirmou que o estrangeiro tende a voltar principalmente por causa do fator eleitoral. Uma eventual mudança na percepção sobre o rumo da política econômica, comparável ao processo observado na Argentina, poderia reabrir espaço para esses recursos. Sem essa alteração, a avaliação é que o investidor externo permanecerá mais distante.

Juros e eleições são os dois gatilhos monitorados

Na visão de Spiess, a trajetória da bolsa brasileira depende de dois fatores centrais: o comportamento dos juros e a evolução da disputa eleitoral. Dados mais fracos de atividade econômica podem abrir espaço para cortes da Selic, a taxa básica definida pelo Banco Central.

Uma Selic menor tende a reduzir o retorno oferecido por novas aplicações de renda fixa e pode diminuir o custo do crédito ao longo do tempo. Isso pode estimular o consumo e os investimentos das empresas, além de tornar as ações relativamente mais atrativas. O efeito, contudo, depende da confiança dos investidores na economia e nas contas públicas.

Com a aproximação das eleições, as expectativas sobre políticas econômicas, gastos públicos e regras para empresas passam a influenciar mais diretamente os preços dos ativos. A indefinição pode elevar a cautela e limitar a entrada de recursos, mesmo quando o ambiente externo melhora.

O que precisa acontecer para a recuperação ganhar consistência

O avanço desta terça-feira pode marcar o fim da sequência negativa, mas não altera sozinho o pano de fundo do mercado. Para que a alta seja sustentada, será necessário observar uma combinação de melhora na percepção política, perspectiva mais clara para os juros e retomada efetiva das compras por estrangeiros.

Até que esses sinais apareçam, a bolsa pode continuar alternando sessões de recuperação e novas quedas. Para quem investe, o principal ponto de acompanhamento é se o fluxo externo voltará de maneira persistente ou se o movimento atual ficará limitado a um ajuste depois da forte desvalorização. O comportamento da atividade, as decisões sobre a Selic e o avanço do cenário eleitoral devem continuar no centro das atenções.