O efeito dos juros elevados começa a chegar ao caixa das empresas brasileiras e pode formar uma “bomba-relógio” no mercado de crédito, alertou Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian. Para ela, sem uma perspectiva clara de redução dos juros, será difícil desarmar o problema, justamente quando a atividade econômica perde fôlego e as companhias enfrentam maior dificuldade para carregar suas dívidas.

Por que o crédito virou o principal ponto de tensão

O problema não está apenas em conseguir um novo empréstimo. Empresas que tomaram crédito no passado precisam pagar juros e refinanciar parcelas em um ambiente mais caro. Se a geração de caixa diminui, sobra menos dinheiro para quitar compromissos, manter estoques, investir ou contratar.

A curva de juros, que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos, continua indicando juros em torno de 14% nos próximos anos. Abdelmalack considera esse nível “impossível e inviável” para uma melhora relevante das condições de crédito no curto prazo. Na prática, mesmo companhias com operações ainda funcionais podem enfrentar dificuldades se o dinheiro disponível não acompanhar o calendário de vencimentos.

Recuperações judiciais mostram a deterioração financeira

Os sinais já aparecem nos pedidos de recuperação judicial, mecanismo usado por empresas para reorganizar dívidas e tentar evitar a falência. Em 2025, cerca de 2.600 CNPJs entraram com pedidos. Entre janeiro e abril de 2026, foram registrados mais 602 casos pela Serasa.

Os setores de serviços e varejo estão entre os mais afetados. Serviços respondem por até 70% da atividade econômica, segundo os dados apresentados no painel da conferência anual do Santander, em São Paulo. A Casas Bahia é um exemplo recente: a companhia recorreu à Justiça para reestruturar suas dívidas em meio à combinação de crédito caro, atividade mais fraca e pressão sobre o caixa.

Juros altos explicam parte da crise, mas não tudo

Na avaliação de Abdelmalack, o ambiente macroeconômico adverso não é suficiente para explicar todos os casos. Problemas de gestão, decisões tomadas ao longo do tempo e modelos de negócios pouco sustentáveis também podem acelerar a deterioração financeira.

Renato Carvalho, fundador da Laplace e especialista em reestruturação, afirma que um dos maiores erros é demorar a reconhecer o tamanho do problema. Segundo ele, gestores podem esperar por um comprador, um novo produto ou alguma solução extraordinária enquanto a situação continua piorando. A resposta, diz, depende mais de processos que permitam decisões rápidas do que de uma única pessoa capaz de “salvar” a companhia.

Por que o caixa é decisivo em uma recuperação

Uma empresa pode ter áreas rentáveis e, ainda assim, entrar em crise se não dispuser de dinheiro para pagar uma obrigação que vence no dia seguinte. Por isso, Carvalho resume a lógica de uma recuperação judicial em três palavras: “caixa, caixa, caixa”.

O tamanho nominal da dívida não determina sozinho a sobrevivência do negócio. O fator decisivo é a capacidade de honrar os compromissos à medida que eles vencem. Quando o crédito seca ou fica caro demais, medidas provisórias deixam de ser suficientes e a companhia pode precisar negociar formalmente com credores.

O que observar daqui para frente

Para empresas, o ambiente continuará condicionado à trajetória dos juros e à capacidade de gerar caixa. Uma redução das taxas poderia baratear refinanciamentos e aliviar parcelas, mas a sinalização atual da curva indica pouco espaço para uma melhora rápida.

Para quem trabalha, consome ou investe, o avanço das recuperações judiciais merece atenção porque pode afetar empregos, fornecedores, preços e a oferta de serviços. O próximo passo será acompanhar se a desaceleração da atividade se intensifica e se o custo do crédito começa a provocar novos pedidos de reestruturação.

Impacto para a sociedade

A pressão sobre o caixa das empresas pode afetar empregos, investimentos e a oferta de produtos e serviços, especialmente nos setores mais dependentes de crédito. Quando uma companhia não consegue renovar dívidas ou pagar compromissos, pode reduzir operações, demitir ou repassar custos aos consumidores. O quadro também aumenta o risco de recuperação judicial e de problemas para fornecedores e credores.