O Bank of America (BofA) vê uma “tempestade se formando” no crédito brasileiro, após os balanços do segundo trimestre de 2026 mostrarem aumento da inadimplência, provisões maiores e piora nas condições financeiras das famílias. Diante desse quadro, o banco americano reforçou uma postura defensiva com bancos e varejistas, dando preferência a instituições com carteiras de crédito mais diversificadas e menos expostas a consumidores de maior risco.
Provisões crescem mais que as carteiras de crédito
O principal sinal de alerta está no avanço do custo de risco, indicador que mostra quanto as perdas com empréstimos pesam sobre os resultados dos bancos. O índice aumentou na maior parte das instituições acompanhadas pelo BofA, refletindo maior cautela das equipes de gestão diante da possibilidade de novas perdas.
As provisões para devedores duvidosos, reservas feitas pelos bancos para cobrir créditos que podem não ser pagos, também cresceram em ritmo superior ao das carteiras de crédito. Na prática, isso indica que as instituições estão se preparando para uma inadimplência mais elevada nos próximos trimestres, mesmo quando continuam expandindo o volume emprestado.
Juros altos comprimem o orçamento das famílias
O relatório aponta que o endividamento das famílias chegou a 49,8%, enquanto o serviço da dívida alcançou 28,5% da renda. Os dados refletem o peso acumulado das parcelas e dos juros sobre o orçamento dos consumidores e reduzem a capacidade de absorver despesas inesperadas ou novos aumentos de custos.
A inadimplência nas operações de crédito para pessoas físicas avançou 20 pontos-base no segundo trimestre, ou 0,20 ponto percentual na comparação trimestral, e acumula alta de 50 pontos-base, equivalente a 0,50 ponto percentual, desde o início de 2026. A deterioração ocorreu mesmo com o suporte do Desenrola, programa criado para renegociar dívidas.
Grandes bancos mostram mais estabilidade
O BofA identificou diferenças importantes entre as instituições. Itaú Unibanco e Bradesco apresentaram custo de risco praticamente estável no trimestre, desempenho associado à maior diversificação das carteiras e à menor concentração em segmentos mais vulneráveis.
Esses bancos também afirmaram manter uma postura mais conservadora, priorizando clientes de melhor qualidade e operações com garantias. Já Santander Brasil, Porto e estruturas financeiras ligadas ao varejo registraram deterioração mais acentuada, por terem maior exposição a clientes de menor renda ou a nichos específicos.
Entre as instituições digitais, Nubank e Inter atribuíram parte da piora à mudança no perfil das carteiras. O Nubank citou o maior peso de empréstimos sem garantia, enquanto o Inter apontou efeitos da expansão do crédito consignado privado, modalidades que podem elevar o retorno, mas também aumentar a sensibilidade a perdas.
Varejo confirma pressão sobre o consumidor
Os sinais de enfraquecimento não ficaram restritos aos bancos. O Assaí relatou restrições ao consumo e maior procura por produtos mais baratos. O Grupo Casas Bahia destacou o elevado endividamento e a piora da qualidade do crédito dos consumidores; a companhia pediu recuperação judicial no domingo, com dívida de R$ 17 bilhões.
Lojas Renner afirmou manter uma concessão de crédito seletiva, apesar da estabilidade da financeira Realize. Natura e Magazine Luiza também mencionaram aumento das perdas esperadas e da inadimplência. Empresas ainda relataram que as apostas online vêm reduzindo a renda disponível das famílias, afetando tanto o consumo quanto o pagamento de dívidas.
O que observar nos próximos balanços
Para quem investe, o alerta está na combinação entre maior inadimplência, provisões crescentes e crédito mais seletivo. Bancos diversificados podem absorver melhor a deterioração, enquanto instituições e varejistas mais dependentes de consumidores vulneráveis tendem a enfrentar maior pressão sobre margens e resultados.
Para consumidores e trabalhadores, o cenário significa possível restrição na oferta de empréstimos e mais dificuldade para renegociar ou contratar crédito. Os próximos balanços indicarão se a alta das provisões foi apenas preventiva ou se as perdas continuarão avançando, enquanto o desempenho do varejo mostrará quanto da renda das famílias ainda está disponível para o consumo.
Impacto para a sociedade
A piora do crédito pode encarecer empréstimos e dificultar novas compras parceladas, à medida que bancos ficam mais seletivos para emprestar. Para as famílias endividadas, juros altos e maior comprometimento da renda reduzem o espaço para lidar com imprevistos. No varejo, consumidores mais pressionados tendem a trocar produtos por opções mais baratas, o que pode afetar vendas e empregos no setor.
